terça-feira, 2 de maio de 2006

O Eleitor de Lula e os "Intelectuais".

Quem vota em Lula? As enquetes dos órgãos de pesquisa nos informam de que se trata dos situados na parte baixa da pirâmide social e regionalmente concentrados no nordeste.

A leitura que a grande imprensa escrita faz do fato não revela os fundamentos desse voto. A imprensa que sempre atacou o radicalismo de um PT que supostamente tinha eleitores reduzidos aos grandes centros de decisão econômica agora ataca o partido que supostamente só vocaliza a voz dos "grotões".

Afinal, o quer a grande imprensa escrita? A resposta não está num mero preconceito de classe. É verdade que é chique pertencer a uma esquerda que não disputa o poder e jamais se "corrompe" em vez de representar trabalhadores de carne e osso. E os jornais e revistas vendem tais valores para a esquerda. A conjunção de interesses da esquerda intelectual, da classe média moralista e dos jornais reside no fato de que a opinião pública formada pela imprensa escrita no Brasil não é a das classes mais desprotegidas, e sim a das próprias camadas médias e superiores.

Mas aqui reside o busílis da questão, como diria o saudoso Florestan Fernandes. O erro de análise da oposição (política e intelectual) a Lula está no fato de que ela liga o acesso às notícias de jornais com o grau de consciência política dos eleitores. Esse erro advém de uma prisão ideológica: confunde-se positivamente (emprego o termo de propósito) o teor do noticiário com a verdade
dos fatos, quando estes, os fatos, são socialmente construídos de acordo com as inclinações subjacentes ao comportamento considerado mais funcional para a reprodução de interesses materiais bem definidos. Esses interesses não são necessariamente os das classes dominantes e às vezes nem mesmo os dos grupos políticos da Direita. São em primeiro lugar os interesses empresariais dos órgãos de imprensa. A crise política de 2005 transmutada em debate moral
serviu muito aos seus interesses. Serviu também à oposição, porém menos. Porque os
partidos políticos de fato, também fazem parte do terreno da política que foi desmoralizado enquanto a mídia aparece não só acima das classes, mas também dos partidos. Portanto, também não há identidade imediata de interesses entre os grupos de oposição e a grande imprensa, como pensa a direção do PT.

Isto explica o fato de que a crise política alegrou depressa demais a oposição e causou uma crise psicológica rápida demais nos militantes de esquerda. É porque ambos partilham o mundo da imprensa escrita. Ora, os valores políticos (não pessoais) de consumo das camadas médias são predominantemente morais e os dos intelectuais tradicionais (estudantes, professores, escritores) são simbólicos.

Por isso, os jornais os difundem, já que se vendem para este público seja à direita ou à esquerda. Já as classes desprotegidas querem, em primeiro lugar, proteção econômica. Se Lula aparece como o único governante que estendeu o pagamento de benefícios sociais, ele é preferível aos outros. Este
raciocínio é simples, mas não é simplista. Os políticos de oposição cometem um erro sério ao
considerar este voto resultado de uma decisão primitiva, pré-política. Nada mais consciente do que uma atitude que leva em consideração interesses materiais líquidos e certos. E nada mais inconsciente do que o voto abstrato do ódio moral.

Há um evidente recorte de classe no eleitorado do PT e dos demais partidos. O que não significa dizer que Lula e seu partido representam de fato os interesses finais da classe trabalhadora, como gostavam de falar os autores do Manifesto Comunista. Mas eles representam a consciência realmente existente dos trabalhadores brasileiros.

Lincoln Secco, Professor do Departamento de História da USP, abril de 2006.

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