sábado, 21 de outubro de 2006

Carta Aberta a Arnaldo Jabor - por Mauro Carrara

Quase perfeitíssimo truão,

Primeiramente, atente ao substantivo, e não desconfie de insulto. Os bobos
da corte são, historicamente, mais que promotores de fuzarca ou desvalidos
a serviço do entretenimento. Os realmente talentosos urdiam na teia das
anedotas a crítica a seus senhores monarcas, traduzindo pela ironia a
bronca popular.

Era o caso do ácido e desengonçado Triboulet, vosso patrono, uma espécie de
grilo falante capaz de estimular as consciências de Luís XII e Francisco I.
Tantos outros venceram no ofício, como o impagável Cristobal de Pernia, uma
espécie de conselheiro extra-oficial de Felipe IV.

Neste Brasil da pós-modernidade globalizante, el rei Dom Fernando Henrique
Cardoso reviveu a bufonaria. No entanto, empregou-a de modo diverso, quase
sempre como dissimulação hilariante para desviar atenções de sua ética de
conveniência mercantil, tão bem definida por Dom José A. Gianotti, seu
filósofo e encanador.

O ex-monarca utilizou ainda sua trupe de falastrões para promover a
alienante festa pública sugerida por Maquiavel. Portanto, nunca é exagero
te parabenizar pelo empenho profissional. Há anos, na ribalta televisiva,
te devotas a divertir e iludir os "psites do sofá", mesmo depois que o
tiranete a quem servias foi apeado do trono. Sempre diligente, conclamas e
incitas, rebolando patranhas tal qual histriônico cabo de esquadra do
restauracionismo.

Recentemente, contudo, causou-me espanto tua fúria salivante para edulcorar
a participação do embusteiro Geraldo Alckmin no embate contra o grisalho
herói de todos os sertões.

Como é próprio de teu ofício, fizeste rir ao embaralhar significados, ao
abusar das hipérboles, ao exceder-se nos adjetivos impróprios, ao viajar na
maionese das idéias desconexas.

No entanto, truão Jabor, prosperou aqui a dúvida. Que quiseste dizer com o
clichê "choque de capitalismo"? Seria referência ao rombo de R$ 1,2 bilhão
legado pelo embusteiro alquimista ao ressabiado governador Lembo? Ou seria
apenas ironia herdada de teus predecessores, na profecia zombeteira de um
novo "que comam brioches"?

Destacam-se também, como enigmas, tuas dupletas acres de escassa teoria.
São os casos de "socialismo degradado", "populismo estatista" e "getulismo
tardio". Eita, nóis! Que essas vigarices binárias nos viessem, ao menos,
com sal de fruta. Né? Ora, de qual "socialismo" tratas? Será que
resolveste, no supletivo dos sexagenários, estudar a industrial cultural e
as idéias de Adorno? Hum... Pouco provável.

No que tange ao termo "populismo", arrisco uma resposta. Tu o compraste na
escribaria de ordenança dos novos donatários. É coisa do bazar de tolices
de Civita e Frias Filho. Acertei? Diga aí...

Mas o que queres dizer com "getulismo"? Pelo que percebi, escapa-te o
fenômeno à compreensão histórica. Tratas daquele do Departamento de
Imprensa e Propaganda? Ou te referes àquele das necessárias justiças
trabalhistas?

Outros exageros me encafifaram em tua anedota de encomenda. Tratas
lisergicamente de um São Paulo "rico", como se construído dos empenhos da
malta quatrocentona. Em teus seminários de apedeuta, desapareceu o povo.
Evaporaram-se João Ramalho, Bartira, Tibiriçá, Anchieta, tantos mamelucos
arabizados, tantos avós europeus aqui remixados, tantos irmãos nordestinos
que ergueram nossos arranha-céus. Teu São Paulo mítico, tristemente, não
admite a antropofagia.

E tem mais... Em tua pregação, o embusteiro Alckmin surge como legítimo
herdeiro da alva elite construtora do progresso. Nesse delírio
pós-positivista e lombrosiano, não há rastro d a gestão criminosa dos
privateiros tucanos, dos sonegadores dasluzeiros, dos pedageiros corruptos
e dos sócios do marcolismo. Não te rendeste ao excesso? Ai, ai, ai...

Agitando guizos, executas tua prestidigitação. Empregas, em simultâneo, o
sapato pontudo para alojar sob o tapete o sacrifício juvenil na Febem, as
nove centenas de contratos irregulares e o estupendo assalto ao tesouro da
gente bandeirante. Não exageraste? És bufão ou advogado, truão Jabor?

Entre tuas deformações, tão valiosas ao ofício, suponho até mesmo a
cegueira de um olho. Ignoras o júbilo de milhões de vassalos não mais
famintos, agora metidos a escrever o próprio nome. Vê, quanto atrevimento!
Tampouco registras a voz de ameríndios e afro-descendentes, agora
perigosamente mais próximos de ti, a tomar lugar nos bancos da
universidades. Não enxergas a energia elétrica nos grotões nem o canto de
esperança dos humildes da terra, fortalecidos em cooperativas de produção.

Depois, qual demiurgo de botequim, dizes que o nasolongo Alckmin é
"incisivo", enquanto o outro te parece "evasivo". Ladino que és, julgas os
combatentes pelo aspecto cênico e não pela natureza das idéias. No caso do
embusteiro alquimista, excedes ao elogiar o espantalho bélico,
aplicadíssimo ao método de stanislavskiano. Ora, magnífico truão, todos
vimos que o herói de todos os sertões é adepto de outra técnica. Pisa o
palco de Brecht, revelando-se como realmente é, antes que se mistifique no
papel de fundeiro de microfone.

Cantaste, portanto, a vitória do "limpinho", do "sem barba", do malcriado
que imita Tyson. Como líder de torcida, vibraste na platéia, tuas pernas
flácidas saltitando de contentamento, as mãos agitando invisíveis fitas
coloridas. Ah, mas perdeste a razão...

Depois, destilaste teu parvo sarcasmo sobre o "povo", sobre a "mãe
analfabeta" do operário e sobre os "pobres", em suma, sobre esses todos do
"lado de cá". Na piada rancorosa, revelaste um desprezo moldado para a
auto-proteção.

Sabes o quanto é doloroso viver deste lado da linha, no território dos
anônimos, dos que sofrem e trabalham de verdade.

Se há dialética nesta missiva, agrego teus motivos. Sabes o valor de uma
adoção real, ainda que precises caminhar de quatro, atado à coleirinha de
el rei. Sabes o quanto é estratégica essa assepsia, esse descontato com o
ímpio das ruas, dos campos e das construções.

Assim, me permito uma visita a teu passado. Tua obra "séria" resultou, caro
truão, em enorme fracasso. E, disso, bem sabes. Por um tempo, tuas ventosas
de sanguessuga agarraram algumas tetas públicas. Desse modo, pudeste
alimentar teus espetáculos de terceira categoria, ainda que fizessem rir
quando a intenção era pretensiosamente induzir à reflexão.

Incerto dia, pobre de ti, todo o oportunismo de parasita foi castigado, de
modo que te encontraste novamente vadio, mergulhado na mais profunda
frustração. Naquele momento, julgo, buscaste inspiração em Triboulet...

Na Vênus Platinada do decrépito Marinho, iniciaste tua pândega panfletária,
calcada na manipulação marota de cacos de idéias. Nada por inteiro.
Coerente para quem, por natureza, carece de integridade.

Esse flashback permite, portanto, compreender melhor o roteiro cínico.
Tanto faz se teu senhor largou o reino às escuras, se destacou piratas para
pilhar o patrimônio público, se foi incompetente até mesmo para empreender
no capitalismo que tanto celebras. Às tuas costas, no tempo, estende-se a
terra arrasada pela peste do egoísmo, habitada de fariseus neoliberais e de
peruas ridículas e mesquinhas. Por meio da ruidosa retórica de falso
indignado, desvias o olhar público dessa paisagem da tragédia.

Para seguir o ato farsesco, fazes descer o pano da falácia sinistra do
golpismo lacerdista, da distorção, da maledicência e da espetacularização
do rito inquisitório. Simulas ver aqui, em alto grau, o que ignoras ali. Na
telinha da "Grobo", distribui sofismas, injetas no sangue de Otello a
desconfiança, patrocinas a intriga nacional.

Poder-se-ia encontrar em ti o personagem Sacripante. Uma observação
acurada, entretanto, revela mais um Silvério dos Reis das artes cênicas.
Certa vez, me disse Henfil: "o pior humorista é o que vende sua comédia aos
canalhas que fazem o povo chorar". Simples, didático, serve à elaboração de
um código de ética de tua categoria.

Pois, tua notícia deturpada do embate, devotado truão, mostrou-se cômico
engodo. Foi lá, teu embusteiro "truco-lento" dar com as fuças na parede.
Saiu do campo laureado e enganado, pior que Pirro. Este, menos imbecil,
admitiu que a vitória contra os romanos fora uma tragédia, o prólogo de sua
ruína.

Portanto, o exemplo da derrota também te serve. Decisivamente, ainda que te
gabes, jamais superaste Paulo Francis, o bobo da corte mais destro nessas
artes de sabujo-rabujo. E se cultivas alguma pretensão de hegemonia, te
sugiro mover o pescocinho atrofiado. Pilantrinhas peraltas, como Mainardi e
Azevedo, emparelham já contigo, disputam hidrofobicamente a suprema
magistratura da bufonaria.

E, percebe truão, que a dupla tonto-fascista não te fica a dever: são
também inescrupulosos, traiçoeiros e carregam a poderosa energia do
ressentimento, sem contar que igualmente migraram do fracasso profissional
para a aventura mercenária midiática.

Por fim, adorável truão, ajusta o relógio da tua soberba. Não é hora de
celebrar a ignomínia convertida em comédia. Nem é momento de levantar a
horda de rufiões da "ética" para cantar a vitória restauracionista. Para
além dos simulacros do teu moralismo cínico, lambuzado de paroxismos
impróprios, exercita-se o sabre do julgamento público, implacável, aquele
cuja lâmina é afiada pelo tempo. Subiram os letreiros... Perdeste o charme.
Perdeste a graça.

Mauro Carrara - Jornalista

Nota de Boca de Mídia sobre o autor:

Mauro Carrara é jornalista, nascido em 1939, no Brás, em São Paulo. É o
segundo filho de Giuseppe Carrara, professor de Filosofia em Bologna, e de
Grazia Benedetti, uma operária e militante comunista de Nápoli. O casal
chegou ao Brasil em 1934, fugindo da perseguição fascista. Mauro foi para a
Itália em 1959, por sugestão do amigo dramaturgo G. Guarnieri. Em Firenze,
estudou arte, ciências sociais e comunicação. De volta ao Brasil, passou
dois anos na Amazônia. Ao atuar na defesa dos povos indígenas, foi preso
pelo regime militar. Libertado, voltou à Itália. Como free-lancer, produziu
reportagens para jornais como L'Unita e Il Manifesto. Com o primo Antonino,
esteve no Vietnã, no início da década de 70. Em 1973, no Chile, juntou-se à
resistência ao golpe contra Allende. No Brasil, como clandestino,
aproximou-se do cartunista Henfil, cujos trabalhos traduziu para uma
revista alternativa italiana. Na década de 80, prestou serviços para a ONU
em países como China, Iraque e Marrocos. Nos anos 90, assessorou ONGs
brasileiras, especialmente na área de Direitos Humanos. Ainda atua na área
de comunicação e relações internacionais.

Nenhum comentário:

FIQUE BEM INFORMADO.

Leia mais: Hoje é dia de que? Datas comemorativas • A arte da vida. Apon HP. Literatura para pensar e sentir http://www.aponarte.com.br/p/hoje-e-dia-de-que-e-amanha_09.html