quarta-feira, 28 de maio de 2008

Anoiteci, e não amanheci em Soledade

Foto: Portal de Soledade, a Capital da Pedras Preciosas

A primeira grande emoção que o rádio me proporcionou foi desagradável. Com pouco mais de vinte anos e trabalhando na Rádio Cristal, Soledade(RS), fiz a cobertura do desaparecimento de uma criança recém nascida, em circunstâncias misteriosas.

O pai, um médico veterinário que viajava pelo interior da região, trouxe para casa uma criancinha, dizendo que a havia encontrado à beira de uma estrada e convenceu a esposa na adoção. Passam alguns dias e a criança some. A suspeita principal recai sobre a mãe adotiva. Não deu outra, o corpo da criança foi encontrada pela polícia e populares, depois de muitas buscas, dentro de um poço abandonado e coberto de cal, logo nos fundos da residencia do casal que era de familia tradicional.

E qual a emoção? Eu alí, transmitindo a retirada de uma criança morta de dentro do poço, já um tanto desfigurada pela cal, produto químico colocado com intuito de desamanchar o corpinho da recém nascida. Foi demais para o jovem repórter. Entrevistei a assassina dentro da cadeia, e ao perguntar se estava arrependida, de pronto ela respondeu: "SIM". Confissão de culpa, gravada. Ela descobriu que a criança era filha do marido, com uma moça do interior. É o caso do "explica, mas não justifica".

Vai daí que os parentes da família abstada me cassavam por toda a cidade, enviando ameaças e querendo me encontrar para comprar a fita. Entreguei a fita ao padre, diretor da rádio, e não soube de mais nada. Achei melhor sair da cidade. Amigos me aconselhavam: "Olha, a familia é poderosa..., pode fazer muito mal a você".

Anoiteci, e não amanheci em Soledade. Não deu nem para sentir saudade.

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