quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Rádio Clube Paranaense, um final lamentável - Blog do Zé Beto

3 Set 2008 - 06:15 - por JamurJr.

A imprensa de Curitiba registrou com indignação a notícia sobre o encerramento das atividades da Rádio Clube Paranaense como emissora geradora. Por determinação dos atuais proprietários, ligados a igreja católica, a emissora passou à condição de repetidora da Rádio Eldorado. Para dezenas de profissionais do rádio que atuaram na Rádio Clube - e milhares de ouvintes espalhados por todo o Brasil, o fato é muito mais que lamentável. Trata-se de uma violência contra as nossas tradições e a própria história da radiofonia no Paraná e no Brasil. Tive a ventura de trabalhar na Rádio Clube Paranaense ao lado de Jair de Brito, Gilberto Fontoura, Ubiratan Lustosa, Euclides Cardoso e tantos outros colegas de grande talento e extraordinária dedicação ao desenvolvimento da radiofonia em nosso estado. Para os que nada sabem ou sabem muito pouco sobre a trajetória e importância da Rádio Clube Paranaense ao longo destes 80 anos, transcrevo a seguir, de forma reduzida, um pouco de sua história tirada do livro “Sintonia Fina”, de minha autoria.

Nascida em 1924, com prefixo de SQJF, a Clube iniciou suas atividades com um pequeno transmissor de 8 watts de potência e teve como sócios fundadores Lívio Moreira, Ludovico Jouvert, Francisco Fido Fontana, Euclides Requião, Bertholdo Hauer, João Alfredo Silva, Gabriel Leão da Veiga, Olavo Bório, Albérico Xavier de Miranda e Oscar de Plácido e Silva. Em 1935 recebeu o prefixo que a tornou conhecida no Brasil e no mundo: PRB-2. Pioneira na transmissão de rádio-teatro, superava suas concorrentes pela qualidade dos programas que apresentava. As novelas marcaram um capítulo especial na vida da mais antiga rádio do Paraná. Em muitos momentos os profissionais paranaenses conseguiram conquistar parte expressiva de um público ouvinte que costumava manter seu rádio em sintonia permanente na Rádio Nacional do Rio de Janeiro.

Enquanto os cariocas provocavam suspiros apaixonados e grandes emoções nos ouvintes de suas novelas tendo como intérpretes os radialistas mais famosos do país, a Rádio Clube Paranaense apostava no talento local para ganhar pontos na sua audiência. O sucesso das novelas dirigidas por Ivo Ferro tinha como ingrediente básico o grande talento de artistas como Ary Fontoura, Mauricio Távora, Lourdes Maria, Sinval Martins, Felix Miranda, Cordeiro Junior, Maria Cristina, Hamilton Correia, Aracy Pedroso, Dora Ely, Mário Vendramel, José Basso, Lourdes Bergman, Yara Regina, Rubens Rollo, Rosana França, Leal de Souza, Ilka Pinheiro, Manoel Muzzilo, Moacir Amaral, Telmo Faria, Odelair Rodrigues, Edson D Ávila, Demerval Costa, Delcy D`Avila, Zaza Maia, Irene Moraes, Claudete Baroni, Danilo Aveleda, Hugo Duarte, Chacon Junior, Lala Schneider, Roberto Menghini, Clovis Aquino, Alceu Honório. Um elenco maravilhoso com mais de 70 profissionais, entre contratados e os chamados “cachês”, mantidos durante muitos anos no quadro de funcionários da Rádio Clube, foi responsável por um feito magnífico na história do nosso rádio. Chegaram a colocar no ar, simultaneamente, 13 novelas, todas de autores consagrados, como Janete Clair, Ivani Ribeiro, Dulce Santucci, Álvaro Rocha, Carlos Silva e Nara Navarro. Na década de 50, houve um período em que a Rádio Clube começava a apresentar novelas a partir das 8:30 horas da manhã, num esquema de programação que representava um desafio para diretores e rádio-atores. Mas nem só de novelas vivia o rádio da época. A Clube Paranaense, a exemplo de sua concorrente Rádio Nacional do Rio de Janeiro, mantinha mais um batalhão de artistas contratados para os programas de auditório, jornalismo e transmissões esportivas. No futebol, a equipe comandada por Pedro Stenghel Guimarães era a mais numerosa e uma das melhores do rádio brasileiro. Pelo microfone da Radio Clube desfilaram nomes importantes nas transmissões esportivas como Túlio Vargas, Machado Neto, Ribas de Carvalho, Paulo Avelar, Osmar Queiroz, Martins Rebelato, Willy Gonzer, Aloar Ribeiro, Marcus Aurélio de Castro, Augusto Reis, Mario Vendramel, Norberto Trevisan, Durval Monteiro, Boris Musialovski, Lombardi Junior, Sergio Fraga, Luiz Alfredo Malucelli. Na década de 50 o quadro de funcionários da emissora era de 100 profissionais, onde se incluía o grande elenco de radio-atores, cantores, humoristas, locutores, produtores e roteiristas de novelas. Entre os cantores e cantoras, nomes como Irene Macedo, Universo Rodrigues, excelente cantor de tangos, e Medeiros Filho, um catarinense de Florianópolis que adotou Curitiba e se revelou um seresteiro inspirado e muito aplaudido nos programas de auditório. Léo Vaz, Luiz Silva, Gilberto Marques, Bolívar Sabóia, Itané Leão, Chico Lima, Zaza, Irmãs Passos e Claudete Rufino foram nomes de destaque no elenco da B-2. No palco da Rádio Clubes desfilaram os maiores interpretes da música popular brasileira, como Silvio Caldas, Orlando Silva, Cauby Peixoto, Emilinha Borba, Elizete Cardoso, Nora Ney, Ivon Cury, Francisco Carlos e Nelson Gonçalves. A emissora mantinha um conjunto regional comandado por Janguito do Rosário e uma orquestra dirigida pelo maestro Antonello, para acompanhar cantores famosos e calouros em seus programas semanais. Foi na Rádio Clube Paranaense que nasceu um dos programas mais famosos de todos os tempos, Revista Matinal, criado por Arthur de Souza, um dos profissionais mais populares da história do nosso rádio. Nos anos 40 a Clube iniciava suas transmissões às 10 da manhã e encerrava às 11 da noite. Para cumprir esse horário “curto” de programação foram contratados apenas dois locutores: Loris de Souza (irmão de Arthur de Souza) e Wilson Martins. Os dois faziam todo tipo de transmissão , desde corrida de cavalos no Prado do Guabirotuba, até os grandes shows no Cassino Ahu, onde se apresentavam nomes famosos como Francisco Alves, Elvira Rios, Trio de Ouro, Pedro Vargas, Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho e grandes orquestras internacionais como a do argentino Francisco Canaro. Esse período de grandes cartazes na programação radiofônica local durou até o jogo ser proibido no Brasil, por ato do presidente Eurico Gaspar Dutra, que, segundo alguns historiadores, teria atendido pedido de Dona Santinha, primeira dama da república e católica fervorosa. O Cassino Ahu, anos mais tarde virou colégio de freiras. A Radio Clube teve pior destino, por ordem de uns padres, virou repetidora de uma rádio de São Paulo.

4 Comentários para “Rádio Clube Paranaense, um final lamentável”

  1. Jeremias, o bom Diz:
    3 Set 2008 - 11:22

    Belo texto de Jamur Junior.

    Impossível é ficar indiferente diante de mais uma agressão à cultura local.

    Já não temos mais emissoras de televisão (as que existem são meras repetidoras de SP e RJ), já não temos mais grupos teatrais estáveis e fortemente representativos, nossos cantores e compositores debandam ou definham, nossas emissoras de rádio estão desaparecendo lentamente.

    Nossas salas de exibição fugiram das ruas e se escondem nos Shoppings, submersas em pipocas, copos plásticos e películas horrorosas.

    O Teatro do Paiol fica mais fechado que aberto. A Ópera de Arame somente serve em seu cardápio formaturas de oitava série.

    Mas somos um modelo para o mundo. Somos?

  2. Carlos Barbosa Diz:
    3 Set 2008 - 15:06

    Parabéns, ZB, por publicar o texto do Jamur. E mais uma vez, o nosso Jeremias coloca os pingos nos is. Ou seja, não há políticas públicas (Estado e PREFEITURA DE CURITIBA, diga-se) que tenham a minima preocupação com a cultura local. Já há alguns anos, os estudantes de jornalismo formados pelos faculdades de Curitiba são treinados a imitar o sotaque dos cariocas (sh) ou quando muito dos paulistas. Afinal estamos na 5a. comarca.

  3. Luiz Witiuk Diz:
    3 Set 2008 - 15:25

    Parabéns, Jamur! Não apenas manifestou sua justa indignação, mas também resgatou a memória daqueles que construíram a história de glória da Rádio Clube Paranaense e que merecem o respeito de todos os paranaenses. Também de todos os brasileiros, pois a Clube por 84 anos e alguns meses “falava” para todo o Brasil como paranaense da gema. Com toda certeza, quem tomou a decisão de “calar” a rádio Clube não é paranaense e nem entende e respeita a ligação afetiva do ouvinte ou a importância histórica da emissora. Não haveria outra saída?
    Estou entristecido pelo melancólico fim que impuseram à rádio Clube AM. Aliás um fim anunciado desde setembro de 2004, quando começou o desmonte. Trabalhei por 12 anos como diretor de jornalismo, quando se investia em profissionais qualificados para um radiojornalismo que valorizava a notícia local e respeitava a necessidade informativa do ouvinte. O homem de visão chamava-se Euclides Cardoso e que colocou a Rádio Clube novamente no topo, na década de 1990.
    É duro passar pelo 1430 do dial, de uma pioneira da radiodifusão do Paraná e ter que ouvir que “a marginal do Tietê está congestionada…”!
    “Ubinam gentium sumus?”, diria um famoso orador latino.

  4. Edmond Dantes Diz:
    3 Set 2008 - 16:52

    Sinceramente, não consigo entender o porquê da indignação. Ora, se o negócio não se auto-sustenta, e não sendo um empreendimento público, qual é a alternativa? Só se alguém se propor a bancar a tradição. Os indignados que financiem a rádio com dinheiro do seu próprio bolso!

Fonte: Blog do Zé Beto - http://jornale.com.br/zebeto/2008/09/03/radio-clube-um-final-lamentavel/#more-13205

Deixo aqui também o meu registro, colocando na íntegra a matéria do Jamur. Concordo com número, gênero e grau. Lamentável. E recordar que a poucos dias, estive na exposição do Rádio, no Teatro Cultural da Caixa, vendo a belíssima história da B2 ( REGISTRADO NESTE bLOG EM VÁRIAS MATÉRIAS ) . Enfim,.....

Indique o Blog do Paulo branco Radialista - www.paulobranco.com

Bookmark and SharePingar o BlogBlogs

Nenhum comentário:

FIQUE BEM INFORMADO.

Leia mais: Hoje é dia de que? Datas comemorativas • A arte da vida. Apon HP. Literatura para pensar e sentir http://www.aponarte.com.br/p/hoje-e-dia-de-que-e-amanha_09.html