quarta-feira, 4 de março de 2009

Paraná vermelho

Bookmark and SharePublicado em 01/03/2009 | Rhodrigo Deda (Gazeta do Povo)

A atuação do Partido Comunista Brasileiro no Paraná foi de grande relevância para a organização dos movimentos sociais no estado, no período que compreende o pós-guerra (1945) e o golpe militar (1964). “Muito dos avanços sociais se deve à luta do PCB. Participaram ativamente na mobilização de sindicatos e trabalhadores rurais. Os comunistas do pós-guerra foram protagonistas de movimentos nacionais, como a Campanha Pela Paz e o Petróleo é Nosso”, afirma Adriano Codato, que, juntamente com Márcio Kieller, acaba de lançar o livro Velhos Vermelhos – História e memória dos dirigentes comunistas no Paraná.

Dividida em duas partes, a obra traz um breve relato histórico sobre o PCB para, em seguida, apresentar entrevistas realizadas entre 2001 e 2002 com dez dirigentes do partido no Paraná que atuaram no partido a partir da segunda metade da década de 1940.

Ivonaldo Alexandre / Espedito Oliveira da Rocha, presidente de honra do PCB-PR: “A proposta comunista continua”
Expedito Oliveira da Rocha, presidente de honra do PCB-PR: “A proposta comunista continua" (foto de Ivonaldo Alexandre)

Segundo os autores, a publicação dos depoimentos da cúpula do PCB no Paraná permite conhecer a interpretação pessoal dos próprios dirigentes do partido sobre a história do PCB no Brasil e no estado entre 1940 e 1960.

Dos dez ex-dirigentes, dois estão mortos: o editor do Tribuna Popular, Hermógenes Lazier; e o empresário Nelson Torres Galvão.

Para Codato, os depoimentos dos militantes do PCB são importante fonte de pesquisa para estudiosos de História e Ciências Sociais. “Os entrevistados falam quase sempre do ponto de vista dos ativistas, mas possuem uma visão mais geral, que é a visão privilegiada do dirigente político”, diz Adriano Codato, na introdução do livro. “Graças a essa visão mais geral, os testemunhos não perdem sua dimensão heroica (ou trágica) das suas lutas e oposições internas e externas, das eficiências e deficiências da organização.”

Márcio Kieller explica que os dirigentes fazem uma análise crítica da condução do partido. Muitos deles mostram um certo ressentimento das escolhas que fizeram e dos rumos que a política brasileira tomou. Já Codato lembra, porém, que, apesar de o mundo não ter se tornado comunista, como era do desejo dos dirigentes, naquele momento histórico, as lutas que eles empreenderam mudaram o Brasil, ao contribuir para a organização dos movimentos sindicais, antecipar temas de interesse das classes trabalhadoras, que somente mais tarde seriam incorporados por outros partidos.

Perfil

Os dirigentes do PCB do pós-guerra eram essencialmente pessoas de classe média, bancários, ferroviários, jornalistas e alguns advogados. Dos dez dirigentes entrevistados, somente um – Espedito Oliveira da Rocha (atual presidente de honra do PCB) – era proletário. “Esse fato contribuiu para que o PCB paranaense fosse, na época, um dos mais organizados do país”, diz Kieller, o realizador das entrevistas.

A imprensa e a organização das bases eram preocupações constantes dos comunistas. Eles mantinham um jornal, o Tribuna do Povo, que funcionou por 48 anos.

Outra preocupação era com a questão financeira. Para se manter, o partido recebia contribuições de colaboradores. O dirigente paranaense do PCB mais bem-sucedido financeiramente talvez tenha sido Nelson Torres Galvão, falecido em 2004. Filiado ao partido em 1945, formou-se em Economia, foi bancário e tornou-se empresário – fundou a Imobiliária Galvão em 1955. Segundo sua filha Tânia Galvão, ele dava apoio financeiro e logístico às atividades do PCB. “O (Luís Carlos) Prestes, por exemplo, quando vinha a Curitiba, ficava muitas vezes hospedado na nossa casa”, conta.

Nelson Galvão, lembra Tânia, costumava dizer que ser comunista e viver num país capitalista significava que você tinha de fazer algumas escolhas. “Não sei se ele conseguia conciliar suas crenças com suas atividades, mas ele conseguiu levar isso até o fim da vida.”

Histórico

1 Criado em 25 de março de 1922, o Partido Comunista do Brasil (PCB), seção brasileira da Internacional Comunista, foi a primeira legenda de caráter nacional a existir no Brasil. Os demais partidos eram dominados por caciques regionais, com estreitos vínculos com a política local.

2 O PCB muda o nome para Partido Comunista Brasileiro em 1945, a fim de poder se legalizar. Isso porque a Justiça entendia que a nomenclatura Partido Comunista do Brasil referia-se a um partido internacional (pois existia o do Brasil, do Chile, da Argentina). A legislação brasileira só permitia partidos nacionais. Como nem todos aceitaram a mudança, em 1962, o PCB racha. Parte de seus dirigentes cria uma nova legenda: PCdoB (Partido Comunista do Brasil).

3 Durante o 10º Congresso do PCB, em 1992, o partido é rebatizado como PPS e sofre uma ampla reformulação em seu conteúdo. O grupo discordante permaneceu sob a sigla PCB e manteve o programa do partido, além de seus símbolos: a foice e o martelo. Saiba mais: O velho ideal, com diferentes visões


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