domingo, 28 de junho de 2009

E VIVA SÃO JOÃO!

Ao chegar em Brasília, ainda do avião, no sobrevôo da cidade, avistei uma fogueira. Junho, festas juninas, lembrei imediatamente dos pés de moleque, quentão e claro, do nosso pinhão. Belas lembranças de nossa infância, quando os acampamentos eram iluminados nas noites frias pelas fogueiras, que aqueciam nossos corações e hoje, nossas lembranças. Ao chegar no hotel, tudo muito bem organizado pela SEPPIR, fomos recepcionados por assessores simpáticos, sorridentes, como esperávamos dos anfitriões. Ao lado, uma quadrilha, pronta para entrar em cena. Não conhecia as pessoas, mas estavam fantasiadas, roupas ciganas e em grupo. Como estavam alegres, fogueira, festas juninas, logo deduzi que faziam parte da quadrilha. Uma beleza. Lá, ao fundo do grupo, uma pessoa conhecida distribuindo a disposição das pessoas, numa peruca dourada. Entendi. A festa seria abrilhantada pela quadrilha. Com sua – desculpem, não sei como descrever o que tinha na cabeça -, peruca dourada ou coroa estilizada. Digamos então, uma alegoria dourada, o que poderia garantir um belo espetáculo. Virei-me para cumprimentar o assessor Marco Antonio e, não sei por que, me veio à cabeça Shakespeare: -“Até tu Brutus?”. Gratuita, sem qualquer ligação no momento, a não ser o nome do assessor. E veio também a lembrança o nome do Perly Cipriano. Mas, logo passou. Segui cumprimentando os atenciosos assessores. Tratei de elogiar a organização, a bela festa de São João. -"Que São João, seu idiota? Não está vendo que é uma fogueira da Inquisição?". Me assustei com a voz gutural que chamou minha atenção. Alguma autoridade brincando, pensei. Virei-me, e vi a peruca dourada se aproximando. Ao lado, o Padre Pança. A assessoria, antes sorridente, agora estava sisuda. Ao fundo a quadrilha, antes alegre e festiva, agora pareciam ursos ferozes, vermelhos de raiva, urrando a cada palavra da peruca dourada. Todos vociferavam contra bruxas e apontavam em nossa direção. Olhei para os lados e para traz, procurando as bruxas e nada vi. Seria uma encenação que eu não estava entendendo? Alguma peça de última hora, como surpresa? E por mais que olhasse, não via as bruxas. E, a peruca dourada seguia gritando: -“ Vocês são bruxas. Não são Ciganas!E sussurrava: -“Você é uma curva”. Os ursos, acompanhavam a peruca dourada, com urros fortes, olhos vermelhos, injetados de ódio e faiscavam sob a luz da fogueira. Os assessores, que presidiam o tribunal – pois sem dúvida, estavam encenando um Tribunal da Inquisição – estavam frios, gelados. Ouvindo tudo e prontos para corroborar a sentença. Achei que seria de bom tom interagir com a encenação e, tentei advogar. Ao argumentar, logo fui interrompido. Então, diante da intempestiva interrupção, entendi que não estavam brincando nem encenando nada. A coisa era pra valer. A peruca dourada, era de fato uma promotora de acusação. Mas, também era o “Juiz”. Os ursos ferozes, eram os jurados. E os assessores, estariam ali como representantes da Santa Inquisição? Diante de tanta parcialidade, retirei-me com o mínimo de dignidade, antes que me atirassem, também, na fogueira. E a platéia, embora o rosto sombrio, deliciava-se com o poder a eles conferido pelos assessores. Outros, envergonhados, olhavam para as paredes. Pensei: -“Será que o Ministro sabe de tudo o que está ocorrendo?” Não acredito. Olhei um a um. Procurei nos seus olhos a razão do por que tudo aquilo? Não conseguia ver seus olhos. Não olhavam para mim. Mas nem todos. Lá, ao fundo, um par de olhos me fitavam, firmemente. Nos lábios, um arremedo de sorriso e nos olhos, uma cobrança: -“Está vendo, seu papudo?". Era o Padre Pança. Entendi. Definitivamente, entendi. O Sagrado Tribunal da Inquisição estava instalado. Procurei, então, novamente a bruxa que apontavam e vi. Mas ela? Ela que já havia prestado tantos serviços aos chefes dos assessores? E a outra? A esposa do violinista, que canta e dança, divulgando a tantos anos a cultura cigana? Agora estava claro. Como se atreviam a propagar e divulgar a cultura de um povo herege, sem o devido consentimento da rainha e pior, sem pagar os dízimos de direito? E veio a sentença. A peruca dourada pronunciou o veredicto final: -“ESTAS MULHERES, NÃO SÃO CIGANAS!”. Sem defesa, sem respeito ao ser humano, sem leis, sem consideração. Tudo estava decidido. E os assessores, que a tudo haviam assistido impassíveis, bateram o martelo. ESTÁ FEITO!!! SÓ RESTA A FOGUEIRA!

Wasyl Stuparyk (Basílio Junior)


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