sábado, 1 de maio de 2010

Adelzon Alves, o amigo de todas as horas

"ADELZON ALVES, O AMIGO DA MADRUGADA" é o nome do programa que Adelzon Alves apresenta na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, das 00 às 03 horas da madrugada. Para nós, do Paraná, é: Adelzon Alves, o amigo de todas as horas.

Eu, Paulo Branco e o Wasyl Stuparyk, o Basílio Junior como era conhecido no meio radiofônico, que estamos produzindo esta matéria, tivemos o prazer de viver a época e conviver com Adelzon Alves no Rádio do Paraná.

E nesta convivência, pelo fruto, entendemos a madeira de lei da mais alta qualidade que havia sido o seu pai, Antônio Damasceno Alves.

Mineiro do interior, veio a Cornélio Procópio, norte do Paraná, onde elegeu-se vereador, pelo distrito de Congonhas.

Foi de seu pai, admirador e incentivador das bandas musicais da cidade e do seu tio, irmão de seu pai, que herdou o gosto pela música popular e cultura popular, assistindo e participando dos ensaios de Folia de Reis da cidade.

Na escola, teve influências importantes, como a professora de História Gilda Poli, mais tarde Secretaria de Estado da Educação e da Cultura, que sempre lembrou com carinho do aluno Adelzon Alves. Outro, o professor de geografia, José Carlos Gomes de Carvalho, que veio a ser o Presidente da Indústria e do Comércio do Paraná.

Iniciou sua carreira de radialista na ZYR-5, Rádio de Cornélio Procópio, onde desenvolveu seu aprendizado com companheiros competentes, em particular, com Marcos Alberto que transmitiu-lhe a percepção musical apurada, a análise das musicas, letras, arranjos e noções de programação musical.

Em 1962, veio para a cidade de Curitiba e foi trabalhar na ZYM-5, Rádio Guairacá – a Voz Nativa da Terra dos Pinheirais – e na Rádio Cruzeiro do Sul, emissora "classe A" na época. Conviveu aí, com um dos maiores diretores do rádio paranaense, Euclides Cardoso.

Embora atuando sempre na área jornalística como locutor, demonstrava o seu carinho pela música brasileira.

Conta-nos o Basílio Junior que, inúmeras vezes, após encerrarem a atividade da emissora, Adelzon, a caminho da pensão onde morava, ia pela rua Marechal Deodoro, a velha e estreita Marechal, cantando: “Sertaneja... Porque choras quando eu canto... Sertaneja... se este canto é todo seu...” ou “Noite alta, o céu risonho... A quietude é quase um sonho...” Não raras vezes, aparecia uma cabeça na janela mandando calar a boca e diziam: “Estes bêbados, nem respeitam a noite.” O detalhe é que o Adelzon nunca bebeu nada.

20-07-2008 Sao Joao del Rei/Minas Gerais/Brasil - 21 INVERNO CULTURAL DA UFSJ
Adelzon Alves (produtor e radialista que impulsionou a carreira de Clara Nunes e definiu sua identidade), no Centro Cultural da UFSJ - Solar da Baronesa
Foto: Andre Fossati/Divulgacao

Certa vez, Clara Nunes veio a Curitiba, contratada para fazer um show em uma das boates da cidade. Adelzon foi escalado para acompanhá-la, e junto foi o Basílio Junior. Da hora da chegada até o final do show, Adelzon tomou 4 Crush’s, um refrigerante de laranja muito famoso na época.

Outra vez, o Adelzon chegou na Rádio lá pelas 07 da manhã de um domingo, para abrir a programação da Guairacá. Chegou rindo feito um doido. Basílio, que era o operador da hora, intrigado, perguntou o que havia acontecido? E o Adelzon explicou que estava vindo pela Marechal Deodoro, ainda antiga e estreita, e que tinha alguns casarões “treme-treme, usados por mocinhas alegres. De repente, de uma das casas, sai um homem de cuecas, correndo e sobraçando calça, camisa e o paletó, sapatos sem meias, pelo meio da rua. No horário, iam as senhoras bem arrumadas em direção a catedral metropolitana, para assistirem a missa de domingo. E no meio da rua, o homem correndo e a mocinha atrás, gritando: “seu filho disso... filho daquela... vai ter que pagar." Totalmente pelada da cintura pra baixo, em pleno sol da manhã, corria pelo meio da rua e cobrava o pagamento pelo serviço executado.

Conto o fato para entenderem o espírito puro do jovem Adelzon Alves. Ao mesmo tempo que criticava o jovem que havia dado o cano na profissional do amor, deliciava-se com a cara e espanto das matronas e puritanas que iam para suas rezas.

Juntamente com Gilberto Cadamuro, fundou o Sindicato de Radialistas do Paraná, do qual, anos mais tarde eu fui o presidente.

Uma outra faceta, que ele raramente conta, é que tambem atuou como ator em televisão. Em determinada ocasião, num desses atos heróicos praticados pelo cidadão comum, um jovem evitou o atropelamento de uma criança e teve sua perna esmagada por um jipe que prensou-o contra a parede. Pois a televisão convidou o Adelzon para representar a personagem do heroi. E ele aceitou. A filmagem, na época, foi feita em 16 milimetros, pois ainda não dispunhamos do video tape. E não é que o Adelzon se saiu muito bem? Teve excelentes críticas, tanto o episódio, quanto o seu protagonista.

Trabalhou depois, na Rádio Independência, como redator e apresentador dos noticiários, onde eu, Paulo Branco, tive uma convivência maior com o Adelzon e passei a admirá-lo como companheiro.

Teve rápida passagem pela Rádio Tinguí, afiliada da Rede Coligada, onde definitivamente implementou sua atividade favorita, apresentar um programa onde lia trovas e tocava, exclusivamente, música brasileira. Foi a maneira como Adelzon Alves demonstrava seu apreço e amor, para a cultura do povo brasileiro.

Tempos difíceis, pouco trabalho em Curitiba, a ditadura militar impondo restrições ao desenvolvimento de programas mais sérios e comprometidos com a aspiração do povo brasileiro, resolveu tentar a sorte no Rio de Janeiro.

Por sua qualidade profissional, logo foi contratado e passou a locutor noticiarista, apresentando o programa “O Seu Redator Chefe” e “O Globo no Ar”. Também trabalhou como locutor comercial no programa de Abelardo Barbosa, o “Chacrinha” que na época enfocava a música da “Jovem Guarda”.

Pra quem conhecia o Adelzon Alves, sabia que não era nada daquilo que ele queria.

Foi tateando e encontrou o pessoal do Teatro Jovem, o CPC da UNE, o Beco das Garrafas, o Grupo Opinião, onde se destacavam, Nara Leão, Zé Kéti, Elizete Cardoso, e a turma da Bossa Nova, que a cada dia, ganhava mais espaço.

Adelzon sabia que estava muito próximo ao seu objetivo. E teve absoluta certeza quando encontrou o movimento do samba, que acontecia fora do espaço universitário e da zona sul da cidade do Rio de Janeiro, como o Zicartola.

Em 1966, passou a ter o seu próprio programa: “Adelzon Alves, o Amigo da Madrugada”, da meia noite e meia às 03 da madrugada. Contatou artistas do morro como Cartola, Candeia, Nelson do Cavaquinho, Zagaia, Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara, Geraldo Babão, Djalma Sabiá e outros compositores de samba, como Paulinho da Viola e Martinho da Vila. Abriu o espaço do Rádio para os compositores do morro, movimento igual somente precedido pelo radialista Salvador Batista da Rádio Tupi.

Adelzon deu o maior ênfase a valorização do compositor do morro. Dentre os primeiros acertos do radialista, destacaram-se como grandes sucessos, "Foi um Rio que passou em minha vida", de Paulinho da Viola e, "O pequeno Burguês" de Martinho da Vila. Além de divulgar, Adelzon orientou os dois compositores que trabalhassem e divulgassem as faixas indicadas. Não deu outra. Ambas foram grandes sucessos.

Face a sua indicação e ao enorme sucesso obtido, foi convidado para ser o produtor da cantora Clara Nunes, onde obteve sucesso ímpar.

Depois, lançou João Nogueira, Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara,
Wilson Moreira da Portela. Outro grande sucesso cultural, foi quando dirigiu o Trio “Os Tincoans”, gravando “Cantos Afros” autênticos, em Yorubá arcaico.

Como radialista, apresentou um programa com Jackson do Pandeiro no início dos anos 70, provocando o reaquecimento da música nordestina.
Jackson do Pandeiro, Adelzon Alves e Luiz Gonzaga - fonte: Blog Santanna, O Cantador

Buscando novas iniciativas que valorizassem a cultura brasileira, passou a apresentar o programa “Fole e Viola”, em 1982, na rádio MEC. Divulgando a música regional das várias regiões brasileiras, do Rio Grande do Sul ao Amazonas, apresentou inúmeros compositores e intérpretes da música regional. Seguindo na mesma linha, apresentou ainda o programa “MPB de Raiz”.

Durante os 24 anos em que apresentou o programa “Adelzon Alves, O Amigo da Madrugada” – de 1966 a 1990 – na Rádio Globo, apresentou ao vivo, os compositores de samba que não tinham espaço nas gravadoras. Sambas enrêdo e sambas de quadra, ganharam espaço nas gravadoras, sómente nos anos 70.


Foram vários compositores e cantores que ganharam reconhecimento na música brasileira, divulgados por ele, entre outros, Alcione, Bezerra da Silva, Jorge Aragão, Elaine Machado, Fundo de Quintal, Mauro Diniz, filho de Monarco da Portela, Zeca Pagodinho e Jovelina Pérola Negra. Teve decisiva influência nos lançamentos de Zeca Pagodinho e Jovelina Pérola Negra.

Hoje, o programa “Adelzon Alves, O Amigo da Madrugada” é apresentado na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, da meia noite às 03 da madrugada, nos mesmos moldes de sempre, prestigiando música, compositores e intérpretes brasileiros.


fonte: YouTube - grassarangel 5 de fevereiro de 2009 — Grassa Rangel no lançamento do Programa Samba MPB de Raiz, comandado pelo Adelzon Alves na Rádio Nacional AM 1130. Neste momento o Adelzon está tocando a Samba de trabalho de Grassa Rangel, faixa 9 do CD ADELZON ALVES MPB DE RAIZ

No ano de 2000, recebeu homenagem da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, em sessão solene, o título de Cidadão Carioca.

Para o Brasil, um talento que quanto mais sobe, humildemente leva junto inúmeros artistas que, embora a competência, dificilmente encontram espaço.

Para nós, conterrâneos do Adelzon, o orgulho de o considerarmos nosso irmão, da nossa família, nosso companheiro. Adelzon Alves, o companheiro de todas as horas!


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