sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Cães usam até crachá em visita a pacientes de hospital


SÃO PAULO - Basta ele colocar as patas no Hospital Paulistano, na região central da capital , para que todos larguem o que estavam fazendo. Eram 15h de quinta-feira quando o cão desfilou pelo corredor, com a língua de fora e o crachá com sua foto orgulhosamente pendurado no peito. Não demorou para que se formasse uma aglomeração. Uma enfermeira saiu de trás do balcão, puxou o celular do bolso e se aproximou, disputando espaço com os curiosos. Mesmo com um certo ar de constrangimento, ela não resistiu ao desejo: "Posso tirar uma foto dele?"


A presença do cão Nick, de 2 anos e 10 meses, da raça golden retriever, transformou o ambiente. Ele faz parte da ONG Amicão e Cãopanheiro, que visita instituições de saúde para ajudar no tratamento dos pacientes. Era a "estréia" de Nick depois do adestramento para ser "voluntário" da ONG. Com a carteira de vacinação em dia, ele ainda passou por um processo de higienização antes da visita.

Com pressão alta, a funcionária pública Agueda Machado completou 39 anos. O gosto azedo de passar um aniversário num hospital foi amenizado pela chegada do cão, que entrou no seu quarto junto com um coro de "Parabéns a Você".

O mecânico Ingo Shoen, de 51 anos, também abriu um largo sorriso ao ver Nick entrando pela porta. Por alguns minutos, ele esqueceu da infecção decorrente de uma cirurgia na coluna, há dois meses.

- O cão traz alegria. É como se o paciente se sentisse com um pé fora do hospital - diz o médico Fernando Seixas.
" O cão traz alegria. É como se o paciente se sentisse com um pé fora do hospital, diz o médico "

A aposentada Iracy Gomide Ortiz Monteiro, de 91 anos, está internada há quase dois anos. Ela respira com aparelhos e tem diabetes e hipertensão. Parte de sua história foi fixada na parede do quarto: numa das fotos, Iracy está no sofá de casa com um cão no colo. O gosto por cães fez com que sua filha, a advogada Vera Ortiz, pedisse a inclusão do quarto da mãe nas visitas de Nick.

- A mamãe se comunica com os olhos. Mostra interesse quando vê algo diferente - diz.

Bruna Dias, de 19 anos, também tem dificuldades para se comunicar. Ela é portadora da Síndrome de Rett, anomalia genética que a impede de falar e caminhar. Bastou que o cão entrasse no seu quarto para que o seu astral mudasse. Sentada na cama, ela aproximou o corpo de Nick e deixou que ele a lambesse.

ONG conta com 11 'voluntários'

A ONG Amicão e Cãopanheiro conta com uma equipe composta por 11 cães. Entre eles, um pastor alemão aposentado da Polícia Militar. A organização faz visitas regulares a locais como o Hospital São Paulo, o Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc), o Hospital Santa Bárbara e o Hospital Paulistano.

Mas o começo foi quase ocasional. Em 2004, as irmãs Angela Borges, de 49 anos, e Luci Lafusa, de 53, assistiram a um documentário na TV que mostrava o trabalho feito por "cães voluntários" em hospitais. Ali despertava a idéia para a criação da ONG. O cachorro Joe Spencer, que pertence às irmãs, foi o primeiro animal da organização. Assim como Nick, ele é da raça golden retriever.

Desde então, as irmãs passaram a colecionar histórias de afeto entre cães e pacientes. Algumas delas serão relatadas num livro, que está sendo escrito por Luci. Há casos como o de uma menina que tinha feito uma cirurgia nos olhos e só decidiu abri-los depois que a enfermeira anunciou a chegada do cão. Ou o de uma paciente operada que se levantou da cama após uma visita do animal.

Uma das histórias que mais emocionam as idealizadoras da ONG é a de uma visita no setor de pediatria, em que o cachorro se aproximou de uma menina que costumava esconder o rosto, envergonhada por causa de uma deformação.

- Ela estava toda encolhida, e aí abriu um sorriso. O nosso trabalho é quebrar essa rotina de doença e levar amor para as pessoas - afirma Angela.
Pioneiro

Sérgio Mendes, de 71 anos, foi um dos precursores no tratamento de doentes com auxílio de cães no país. Em 2001, ele levou um cachorro pela primeira vez ao Hospital Universitário da USP. Economista aposentado há 13 anos, aprendeu a adestrar cachorros como uma forma de preencher os dias. Para isso, fez estágio de três meses num acampamento de lobos nos EUA para entender as raízes do comportamento canino. Ao voltar ao Brasil, Mendes estava decidido a ajudar os doentes.

- Tive a idéia tomando café com um especialista no assunto, durante o meu estágio nos EUA. Esse tipo de tratamento faz uma diferença na vida das pessoas - explica.

Parte das recordações dos sete anos de terapia com cães encontra-se dentro de uma carteira, onde Mendes guarda os crachás usados pelos cachorros nos hospitais. Outra parte das lembranças está registrada no livro "Cachorro também é remédio", que ainda não foi lançado por falta de recursos.

No apartamento, onde mora sozinho, nos Jardins, Mendes treina atualmente a cadela Paçoca, de 10 meses, e sem pedigree. Vira-lata, ela foi adotada pelo aposentado no Centro de Controle de Zoonoses de Ubatuba, entre mais de 400 cães, com um destino traçado: alegrar a vida de pacientes internados.

Publicada em 05/10/2008 - Herculano Barreto Filho, Diário de S. Paulo

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