quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Mauricio Távora

Pois então, como diz o Paulo Branco. Além de inventar o blog, para se ocupar, ainda escala os amigos para trabalhar. Mas faço com prazer, não encaro como trabalho e sim como oportunidade pra colocar alguns fatos e eventos ocorridos no passado.

Maurício Távora Neto. Grande artista que nos presenteou com criações bastante significativas. Ator, publicitário, escritor, diretor teatral, poeta, cenógrafo, pintor, roteirista, iluminador e excelente companheiro. Tudo que fez pela arte cênica, não mereceu, nem sequer, uma plaquinha no banheiro do mini auditório do Teatro Guaira, a quem ele deu o nome de Glauco Flores Sá Brito, em homenagem ao colega e diretor de dramaturgia da TV Paraná, canal 6.

No ano passado, por questão de trabalho, tive que ir ao Guaira. E, entre encontros com alguns antigos companheiros, fiquei sabendo que construíram um cenário de ferro para um ballet. Confesso que tremi e me arrepiei todo. Não tive coragem de ir ao palco para ver o dito cenário e por isso mesmo, não vou comentar a praticidade e efeito do mesmo na produção. Mas, como a gente conhece a praticidade do teatro e a parte técnica, fiquei a imaginar qual o custo do tal cenário. Tanto de ferro, de soldas, de parafusos etc. Claro que, nem pensei no valor do projeto cênico.

Contei o fato porque me veio a cabeça, imediatamente, a primeira grande produção de Maurício Távora na área de dança, o Ballet Gisele. Além do fantástico elenco – Ana Botafogo, Maria Jacira Amaral, Hugo Delavale, João Carlos Caramês, Loraci Setrangi na coordenação artística e eu, como supervisor de produção e promoção.
Por questão de economia, o Maurício resolveu fazer o cenário do ballet. Foi a maquinaría – setor onde ficam concentrados os técnicos que constroem os cenários – olhou, pesquisou, conversou com o Panhe – chefe do setor – com o Chapula, imediato do Panhe e subiu para o seu gabinete. Era então o Superintendente da Fundação Teatro Guaira. Rabiscou o rascunho do cenário e nos chamou, o Hugo, coreógrafo, a Loraci, coordenadora e a mim, supervisor de produção. Mostrou-nos os desenhos, de efeito muito bonito e perguntou o que achávamos. Tão bonito que todos aplaudiram e eu de imediato perguntei: Maurício, e o dinheiro? A gente arranja, respondeu. Além do mais, é muito barato. Apenas alguns metros de sobras de ripas e sacos de estopa. Que, sacos de estopa??? Todos ficamos pasmos com a simplicidade da solução encontrada. A obra era grande, um dos grandes clássicos. E foi um estrondoso sucesso, no Brasil inteiro.
Lembro ainda a grande surpresa que provocava nos espectadores quando, ao final do ballet subiam ao palco para cumprimentar os bailarinos, viam o cenário construído com sacos de estopa.

Assim era o Maurício. Em tudo, ouvia atentamente e encontrava soluções simples, mas que resolviam as questões. Bem ao contrário do seu diretor artístico que em tudo via dificuldade e a impossibilidade de realização. Para um diretor artístico a atitude era bastante coerente com o seu histórico no teatro. Em seus anos como aluno do curso de teatro, conseguiu dois papéis. O primeiro, Sale Wolokita escalou-o para fazer o papel de cocheiro na peça do curso, Está lá fora um inspetor e depois, o Armando Maranhão, escalou-o para representar um cabide, na peça infantil O casaco encantado. Nas duas personagens, entrava mudo e saia calado. Tal a sua competência.

Por isso, sentindo falta de apoio para concretizar objetivamente seus sonhos junto a sua diretoria, me tirou do setor de sonoplastia, onde eu era o chefe da equipe e criou o cargo de Supervisor de Produção e Promoção do Corpo de Baile do Teatro Guaira. Eu fui o primeiro a exercer o pomposo cargo e que me possibilitava falar diretamente com o Superintendente, não com o amigo, sobre assuntos do ballet. Claro que o tal diretor artístico ficou louco da vida. Tão louco que mais tarde, num ato de traição ao Maurício, provocou uma confusão que culminou com a saída do Maurício da direção do Teatro e com ato criminoso contra mim. Mas esta é uma outra estória.

Com o empenho do Maurício e meu conhecimento na área de produção e promoção, levamos o ballet Gisele a inúmeras capitais brasileiras, com enorme sucesso. Destaque no Fantástico, na Revista Manchete e da critica especializada. Outro grande sucesso, foi a apresentação na cidade de Brasilia, onde dentro do Ginásio de Esportes foi construído um teatro completo, num esforço gigantesco da equipe técnica do Teatro Guaira. Palco, cochias, cortina de boca de cena, pernas, bambolinas, iluminação. Um trabalho fantástico dos técnicos do Guaira que terminou com o belíssimo espetáculo onde estavam presentes o Ministro Nei Braga e outros ilustres convidados.
O Maurício, quando assumiu a direção do Teatro Guaira, disse claramente que não seria “um gerente de cinema”, embora nada tenha contra os gerentes de cinema. Mas a função do Guaíra era outra, mais ampla e com compromissos com os artistas do Paraná. Pena que tenha ficado tão pouco, por força do governador da época e do seu diretor artístico que atrapalhava seu trabalho.

Quantas idéias para o Teatro de Comédias do Paraná, para as companhias independentes do Paraná, para o teatro amador, o Maurício tinha. Eu sei dos seus projetos. A intenção de fazer trabalhar todas as companhias, todos atores, técnicos e bailarinos. E não duvidem, ele teria concretizado todos seus sonhos e ideais, não fosse a política de um governante.
Hoje, vemos o quanto nos fazem falta os verdadeiros amantes das artes cênicas. Um Maurício Távora, um Sale Wolokita, um Claudio Correa e Castro. Gente que realizava, gerava trabalho e arte.
O que restou no Teatro Guaira? Um Corpo de Baile que ensaia e raramente se apresenta. Uma Orquestra que ensaia e também raramente se apresenta. O Teatro de Comédias do Paraná? Nem sei se existe ainda.

Alias, com a aparição de um novo e grande teatro, o Guaira, existe ainda?

Um abraço,
Wasyl Stuparyk

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