terça-feira, 28 de setembro de 2010

Não sentir medo é irresponsabilidade


Publicado em 26/07/2008 | MARCIO RENATO DOS SANTOS

Entrevista com Carlos Augusto Remor - Chefe do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina

O medo não é novidade dos tempos modernos. Quem afirma é o chefe do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Carlos Sugusto Remor. Em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, ele também fala sobre alguns dos medos humanos: das forças da natureza, do final da existência e do próximo.

Ele comenta algumas nuances do medo, "muito diagnosticado e pouco tratado". Cita a síndrome do pânico, "que não é uma doença, mas um quadro de diversos sintomas. É quando a neurose explode em angústia generalizada". Remor chega, inclusive, a alertar que um sujeito sem medo, diferentemente de ser destemido, é alguém irresponsável, que pode se expor a riscos que não precisaria correr.

Gazeta do Povo – Como o medo se manifesta na sociedade contemporânea?

Carlos Augusto Remor – O medo não é algo da sociedade contemporânea. O medo acompanha o homem desde a pré-história. Inicialmente, é um sinal de alarme, uma proteção, que diz que algo não está bem. O ser humano tem vários medos.

Por exemplo?

Das forças da natureza. Daí, o homem constrói aparatos para se defender das várias forças naturais, mas esses aparatos não dão conta de anular o medo. E há um medo maior ainda. Nós temos prazo de validade. Nosso corpo está condenado à decrepitude e, depois, à dissolução. Por isso, a insegurança se mantém. E há ainda o medo do próximo.

O próximo, o semelhante, representa uma causa do medo?

A relação com o outro é muito difícil. O ser humano se protege do semelhante. O medo, que inicialmente era uma defesa, acaba se tornando outra coisa. Então, o ser humano pode querer se isolar dos outros. Isso é uma neurose. Diante do perigo, o sistema nervoso injeta sangue para os membros contraindo as vísceras com a finalidade de viabilizar o fuga. O neurótico desmaia diante do medo. Com isso, digo, e repito, que o medo não é contemporâneo. Nem a neurose, que tem início no período em que o ser humano começou a falar.

O medo é tratado?

O medo é muito diagnosticado e pouco tratado. Hoje, existe um problema chamado síndrome do pânico, que é o pânido generalizado. Uma coisa é ter medo de cachorro. O sujeito acredita que pode controlar se afastando ou evitando cães. No caso da síndrome do pânico, a angústia não está depositada em apenas um objeto: o sujeito tem medo de tudo, não sabe para onde ir. A síndrome do pânico não é uma doença, mas um quadro de diversos sintomas. É quando a neurose explode em angústia generalizada.

Sentir, por exemplo, medo de cachorros não seria sintoma de outro problema?

Ninguém sente medo de cachorro por causa dos cães. O medo é efeito de outra coisa. O que precisa procurar é o que, de fato, provoca esse medo.

Há estatísticas a respeito da incidência do medo no presente?

Estatísticas não servem para nada, além de matar determinada curiosidade. Duas pessoas têm a mesma fobia, mas podem ser, na realidade, sintomas de problemas distintos. Todos os caminhos levam à Roma, mas cada um sai de um lugar para chegar lá. Alguém que é anoréxico pode ter os mesmos problemas de um sujeito extremamente obeso. O sintoma é apenas a ponta que aparece.

O medo faz bem?

Faz. É como a dor, que inidica ao indivíduo que algo está errado. O medo sinaliza. Alguém sem medo é um sujeito sem responsabilidade. Não ter medo não significa ser destemido. Porque podem ter conseqüências, às vezes desastrosas. Sem medo, o sujeito fica exposto, inclusive à morte.


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