segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Médicos precisando de atendimento médico

“Diagnóstico é de pesquisa do Conselho Federal de Medicina, que virou livro. Para o coordenador da sondagem, a culpa é da pesada carga de trabalho da categoria”
Pelo menos quatro em cada dez médicos (44%) apresentam sintomas de depressão ou ansiedade, e quase seis em cada dez (57%) têm a síndrome de burnout (estafa e desânimo com o emprego). A conclusão é da pesquisa feita pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) com 7,7 mil profissionais, que se tornou o livro A Saúde dos Médicos no Brasil. Ela demonstra que os distúrbios psíquicos nos médicos superam em quase 11 pontos porcentuais a incidência na população em geral – 33,4%, de acordo com dados de uma pesquisa internacional utilizada como referência pelo CFM.
A avaliação levou em conta a estafa profissional, indicadores psiquiátricos (fadiga, depressão, ansiedade), doenças relacionadas na Classificação Internacional de Doenças (CID-10 – última atualização), medicamentos utilizados e consumo e abuso de drogas psicotrópicas. E apontou como causas dos distúrbios as condições de trabalho, muitas vezes precárias, com jornadas estafantes, multiplicidade de atividades, desgaste profissional e redução de salários.
Ansiedade compromete atendimento
Doutor Thompson (nome fictício), 30 anos de profissão, com três especialidades (cirurgia, endoscopia digestiva e gastroenterologia), tem os sintomas de ansiedade há cerca de 15 anos. Ele conta que a profissão, por si só, exige que se adote soluções rápidas, gerando ansiedade. “São situações de emergência em que o médico tem de resolver o problema o mais rápido possível”, diz.
Para conter a ansiedade, o médico faz atividades relaxantes, sem usar remédios, consumir álcool, nem drogas. “Gosto muito de música, toco violão e tenho uma banda”, conta. “Além disso, a leitura e as atividades físicas (corrida ou caminhada) ajudam a diminuir os níveis de estresses.”
Thompson reconhece que o distúrbio compromete o atendimento a alguns pacientes. “Tenho dificuldade em lidar com o paciente ansioso”, opina.
Ele disse ainda que a profissão deve ser exercida ou escolhida por pessoas vocacionadas, não apenas pelo aspecto financeiro. “A Medicina é uma amante ciumenta, que se coloca sempre em primeiro lugar”, define. (JNB)
Medidas
Genário Barbosa, coordenador da pesquisa, pede políticas públicas específicas para a saúde dos médicos. “Podemos firmar parcerias com os ministérios da Saúde e da Previdência e exigir que profissionais, anualmente, passem por baterias de exames” diz Barbosa. “Garantir a saúde do médico é garantir a saúde da população. É importante ser tratado por alguém em perfeitas condições psicológicas.”
Só o tratamento, no entanto, não é suficiente se ele mantiver a rotina de jornadas estressantes: média de 15 a 18 horas de trabalho diário, com pelo menos três atividades, salvando vidas. Isto representa uma média de 70 horas de trabalho semanal. “É uma radiografia muito grave da medicina brasileira”, afirma Barbosa.
Desafio
Tentar amenizar este contexto é o desafio da Comissão de Saúde do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR). Segundo a médica Roseni Teresinha Florêncio, o CRM-PR está investindo muito para tentar reverter os números da pesquisa. “A comissão está fazendo palestras e incentivando o tratamento, mas só isto não basta. As políticas públicas de saúde precisam enxergar o médico como um ser humano.” Ela citou o desgaste dos plantões de 36 horas, como algo que supera as forças físicas de qualquer pessoa, uma porta para os males apontados na pesquisa.
Sobre o desânimo com o emprego, que junto com a estafa atingiu 57% da pesquisa, a médica Roseni afirmou que a insatisfação não é com a profissão, mas com os baixos salários pagos pelo mercado de trabalho. “Muitas vezes, o médico precisa ter três ou quatro empregos para manter a qualidade de vida da família, trabalhando de 15 a 16 horas por dia”, afirma Roseni.
Decepção
Para o presidente em exercício do Sindicato dos Médicos no Estado do Paraná, Murilo Schaefer, a maior decepção é com o retorno que a profissão oferece atualmente (financeiro, pessoal, satisfação profissional e com as políticas de saúde). “A nossa carreira deveria ser como a do magistrado e a dos profissionais de direito”, diz.
Além da saúde mental, a pesquisa do CFM aponta ainda que os problemas físicos dos médicos também são alarmantes. Um em cada cinco sofre de doenças cardíacas, e 21,8% têm problemas no aparelho digestivo.
Os especialistas falam que uma das origens da “medicina doente” é a falta de tempo dos médicos. Segundo a pesquisa, na região Sul 82,2% dos profissionais acumulam três ou mais empregos.

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