
Dias atrás, postei matéria sobre meu grande amigo Adelzon Alves. Hoje, reproduzo a matéria com áudio, para que todos possam saborear um pouco mais do Adelzon Alves, "
O Amigo da Madrugada". Abaixo o áudio que gravei no estúdio do meu amigo Wasyl, o Basílio Junior. Vale a pena ouvir o áudio e ler novamente a matéria sobre o Adelzon.

Leia a matéria:
“
ADELZON ALVES, O AMIGO DA MADRUGADA.”, é o nome do programa que apresenta na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, das 00 horas às 03 da madrugada.
Para nós do Paraná, é “
Adelzon Alves, o Amigo de Todas as Horas”.
Eu, Paulo Branco e o Wasyl Stuparyk, ou Basílio Junior como era conhecido no Rádio, que estamos produzindo esta matéria, tivemos o prazer de viver a época, e conviver com Adelzon Alves no Rádio do Paraná.
E nesta convivência, pelo fruto, entendemos a madeira de lei, da mais alta qualidade, que havia sido o seu pai, Antônio Damasceno Alves.
Mineiro do interior, veio a Cornélio Procópio, norte do Paraná, onde elegeu-se vereador pelo distrito de Congonhas.
Foi de seu pai, admirador e incentivador das bandas musicais da cidade, e do seu tio irmão de seu pai, que herdou o gosto pela música popular e cultura popular, assistindo e participando dos ensaios de “Folia de Reis”, da cidade.
Na escola, teve influências importantes, como a professora de História Gilda Poli, mais tarde Secretaria de Estado da Educação e da Cultura, que sempre lembrou com carinho do aluno Adelzon Alves. Outro, o professor de geografia José Carlos Gomes de Carvalho, que veio a ser o Presidente da Indústria e do Comércio do Paraná.
Iniciou sua carreira de radialista na ZYR-5, Rádio de Cornélio Procópio, onde desenvolveu seu aprendizado com companheiros competentes, em particular com Marcos Alberto, que transmitiu-lhe a percepção musical apurada, a análise das músicas, letras, arranjos e noções de programação musical.
Em 1962, veio para a cidade de Curitiba e foi trabalhar na ZYM-5/Rádio Guairacá – “A Voz Nativa da Terra dos Pinheirais”, e na Rádio Cruzeiro do Sul, emissora “Classe A” na época. Conviveu aí, com um dos maiores diretores do rádio paranaense, o Euclides Cardoso.
Embora atuando sempre na área jornalística como locutor, demonstrava o seu carinho pela música brasileira.
Conta-nos o Basílio Junior que, inúmeras vezes, após encerrarem a atividade da emissora, Adelzon a caminho da pensão onde morava, ia pela rua Marechal Deodoro, a velha e estreita Marechal, cantando: -“
Sertaneja ... Porque choras quando eu canto ..., Sertaneja ..., se este canto é todo seu ...” ( autoria de René Bittencourt”) , ou, -“
Eu, chorei, pela primeira vez na minha vida, quando minha vida começou ...” (Três Lágrimas, de Ary Barroso.).
Certa vez, Clara Nunes veio a Curitiba, contratada para fazer um show em uma das boates da cidade. Adelzon foi escalado para acompanhá-la e junto foi o Basílio Junior. Da hora da chegada até o final do show, Adelzon tomou 4 Crush’s, um refrigerante de laranja, muito famoso na época.
Outra vez, o Adelzon chegou na Rádio às 7 horas da manhã de um domingo, para abrir a programação da Guairacá. Chegou rindo feito um doido. Basílio, que era o operador da hora, intrigado, perguntou o que havia acontecido? E o Adelzon explicou. Vindo pela Marechal Deodoro, ainda antiga e estreita, tinha alguns casarões “treme-treme”, usados por mocinhas alegres. De repente, de uma das casas, sai um homem de cuecas, correndo e sobraçando calça, camisa e o paletó, sapatos sem meias, pelo meio da rua. No horário, iam as senhoras bem arrumadas em direção a catedral metropolitana, para assistirem a missa de domingo. E no meio da rua, o homem correndo e a mocinha atrás, gritando: -“
seu filho disso... filho daquela... vai ter que pagar”. Totalmente pelada da cintura pra baixo, em pleno sol da manhã, corria pelo meio da rua e cobrava o pagamento pelo serviço executado”.
Conto o fato para entenderem o espírito puro do jovem Adelzon Alves. Ao mesmo tempo que criticava o jovem que havia dado o cano na profissional do amor, deliciava-se com a cara e espanto das matronas e puritanas, que iam para suas rezas.
Juntamente com Gilberto Cadamuro, fundou o Sindicato de Radialistas do Paraná, do qual anos mais tarde, eu fui presidente.
Uma outra faceta, que ele raramente conta, é que tambem atuou como ator em televisão. Em determinada ocasião, num desses atos heróicos praticados pelo cidadão comum, um jovem evitou o atropelamento de uma criança e teve sua perna esmagada por um jipe, que prensou-o contra a parede. Pois a televisão convidou o Adelzon para representar a personagem do heroi. E ele aceitou. A filmagem, na época, foi feita em 16 milimetros, pois ainda não dispunhamos do video tape. E não é que o Adelzon se saiu muito bem. É ..., teve excelentes críticas, tanto o episódio, quanto o seu protagonista.
Trabalhou depois, na Rádio Independência, como redator e apresentador dos noticiários, onde eu, Paulo Branco, tive uma convivência maior com o Adelzon e passei a admirá-lo como companheiro.
Teve rápida passagem pela Rádio Tinguí, afiliada da Rede Coligada, onde definitivamente implementou sua atividade favorita, apresentar um programa onde lia trovas e tocava, exclusivamente, música brasileira. Foi a maneira como Adelzon Alves demonstrava seu apreço e amor, à cultura do povo brasileiro.
FRoram tempos difíceis, pouco trabalho em Curitiba, a ditadura militar impondo restrições ao desenvolvimento de programas mais sérios e comprometidos com a aspiração do povo brasileiro, resolveu tentar a sorte no Rio de Janeiro.
Por sua qualidade profissional, foi logo contratado e passou a locutor noticiarista, apresentando o programa “O Seu Redator Chefe” e “O Globo no Ar”. Também trabalhou como locutor comercial no programa de Abelardo Barbosa, o “Chacrinha”, que na época enfocava a música da “Jovem Guarda”.
Pra quem conhecia o Adelzon Alves, sabia que não era nada daquilo que ele queria. Foi tateando e encontrou o pessoal do Teatro Jovem, o CPC da UNE, o Beco das Garrafas, o Grupo Opinião, onde se destacavam, Nara Leão, Zé Kéti, Elizete Cardoso, e a turma da Bossa Nova, que a cada dia, ganhava mais espaço.
Adelzon sabia, que estava muito próximo ao seu objetivo. E teve absoluta certeza quando encontrou o movimento do samba, que acontecia fora do espaço universitário e da zona sul da cidade do Rio de Janeiro, como o Zicartola.
Em 1966, passou a ter o seu próprio programa “
Adelzon Alves, o Amigo da Madrugada”, da meia noite às 4 da madrugada. Aliás, fui entrevistado nesse programa pelo Adelzon. Contatou artistas do morro como Cartola, Candeia, Nelson do Cavaquinho, Zagaia, Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara, Geraldo Babão, Djalma Sabiá e outros compositores de samba, como Paulinho da Viola e Martinho da Vila. Abriu o espaço do Rádio para os compositores do morro, movimento igual sómente precedido pelo radialista Salvador Batista, da Rádio Tupi.
Adelzon, deu o maior ênfase a valorização do compositor do morro. Dentre os primeiros acertos do radialista, destacaram-se como grandes sucessos, “Foi um Rio que passou em minha vida”, de Paulinho da Viola, e “O pequeno Burguês”, de Martinho da Vila. Além de divulgar, Adelzon orientou os dois compositores que trabalhassem e divulgassem as faixas indicadas. Não deu outra. Ambas, foram grandes sucessos.
Face a sua indicação e ao enorme sucesso obtido, foi convidado para ser o produtor da cantora Clara Nunes, onde obteve sucesso ímpar.
Depois, lançou João Nogueira, Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara, Wilson Moreira da Portela. Outro grande sucesso cultural foi quando, dirigiu o Trio “Os Tincoans”, gravando “Cantos Afros” autênticos, em Yorubá arcaico.
Como radialista, apresentou um programa com Jackson do Pandeiro no início dos anos 70, provocando o reaquecimento da música nordestina.
Buscando novas iniciativas que valorizassem a cultura brasileira, passou a apresentar o programa “Fole e Viola”, em 1982, na Rádio MEC. Divulgando a música regional das várias regiões brasileiras, do Rio Grande do Sul ao Amazonas, apresentou inúmeros compositores e intérpretes da música regional. Seguindo na mesma linha, apresentou ainda o programa “
MPB de Raiz”.
No ano de 2000, recebeu homenagem da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, em sessão solene, o título de Cidadão Carioca.
Durante os 24 anos em que apresentou o programa “
Adelzon Alves, O Amigo da Madrugada”, de 1966 a 1990 na Rádio Globo, apresentou ao vivo, os compositores de samba que não tinham espaço nas gravadoras. Sambas enrêdo e sambas de quadra, ganharam espaço nas gravadoras, sómente nos anos 70.
Foram vários compositores e cantores que ganharam reconhecimento na música brasileira, divulgados por ele, entre outros, Alcione, Bezerra da Silva, Jorge Aragão, Elaine Machado, Fundo de Quintal, Mauro Diniz filho de Monarco da Portela, o Zeca Pagodinho e Jovelina Pérola Negra. Teve decisiva influência nos lançamentos de Zeca Pagodinho e Jovelina Pérola Negra.
Hoje, o programa “
Adelzon Alves, o Amigo da Madrugada”, é apresentado na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, da meia noite às 03 da madrugada, nos moldes de sempre, prestigiando música, compositores e intérpretes brasileiros.
Para o Brasil, um talento que quanto mais sobe, humildemente leva junto inúmeros artistas, que embora a competência, dificilmente encontram espaço.
Para nós, conterrâneos do Adelzon, o orgulho de o considerarmos nosso irmão, da nossa família, nosso companheiro.
Adelzon Alves,
“O Companheiro de Todas as Horas!”Veja e baixe os vídeos do
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