sábado, 26 de março de 2011

Aventura Eleitoral de Radialistas no Século XX em Londrina

Esta comunicação, síntese adaptada de nossa dissertação de mestrado, contextualiza e reflete sobre a estreita relação existente entre a mídia e a política no Brasil e em Londrina, notadamente nas últimas décadas do século XX.
Ela demonstra que os meios de comunicação de massa (MCM) possibilitam, cada vez mais, a apresentação dos candidatos em campanhas eleitorais como simples produtos de consumo.
E analisa a trajetória histórica do rádio brasileiro enquanto instrumento de produção, reprodução e manutenção da ideologia capitalista, base do Estado nacional.

A pesquisa estuda a estrutura partidária, as formas de representação, as discriminações ao eleitor e as eleições institucionais no país e na cidade. São utilizados dados e documentos da Justiça Eleitoral, emissoras de rádio e jornais locais, Câmara de Vereadores e IBGE, entre outros órgãos; além de entrevistas com 23 personagens ligados diretamente ao tema.

Londrina é uma cidade de porte médio, localizada 390 km ao norte de Curitiba, capital do Paraná. Conforme dados do último Censo do IBGE, Londrina contava em 2000 com uma população de 446 mil habitantes e 299 mil eleitores (66.98%). A Câmara Municipal possuía 21 vereadores.

O trabalho investiga como a força deste palanque eletrônico chamado rádio ajudou 15 de seus profissionais a criar um capital eleitoral e a obter sucesso em pleitos municipais, de 1968 – o primeiro realizado sob o regime militar que vigorou de 1964 a 1985 – a 1996.
Demonstra, no entanto, que nem o mais popular dos MCM foi capaz de garantir, por si só, sucesso eleitoral a outros 17 radialistas que tentaram desempenhar o papel de político outsider (3) no período pesquisado.
Conclui que, por esta razão e por outras causas, os radialistas-políticos londrinenses tiveram uma derrota coletiva nas urnas em 2000, na última eleição do Século XX .

Não foi acidente ou coincidência o fato de os principais veículos de comunicação de massa (jornal, cinema, rádio e televisão) terem sido inventados e desenvolvidos na esteira dos acontecimentos históricos que prepararam e tornaram realidade a Revolução Industrial, a modernidade, e a transformação das sociedades desenvolvidas da Europa, dos Estados Unidos, do Canadá e do Japão.
A criação dos diferentes meios de comunicação – como ocorreu mais recentemente com a Internet – possibilitou aos homens e às sociedades concretizar experiências comuns antes nunca imaginadas.
Mas serviu também para a manutenção, divulgação e multiplicação da ideologia capitalista dominante em muitos dos lugares mais longínquos da Terra.

Desde a sua invenção e início de operação, o rádio tornou-se um importante instrumento de dominação política e ideológica naquelas nações, e mais tarde no Brasil.

As emissoras de rádio do País, em sua maioria, sempre serviram como instrumento de manutenção e reprodução do Estado.
Não foi diferente em Londrina, onde os proprietários-concessionários de emissoras têm sido ao longo das décadas, desde 1943, fazendeiros, industriais, igrejas e grandes comerciantes intimamente ligados – em sua quase totalidade – ao poder político local, estadual e/ou nacional.

Além disto, as emissoras têm sido utilizadas no País, por boa parte de seus profissionais – radialistas que comandam programas populares de grande audiência – como meio de propaganda que leva a vitórias em eleições políticas para os diversos cargos eletivos de representação: vereador, prefeito, deputado estadual, governador, deputado federal e senador da República.

Nossa pesquisa estuda a relação entre o rádio (tido como um meio de comunicação de massa privilegiado por suas características e tipo de público) e a política-partidária institucional em Londrina.
O rádio, inventado no final do século XIX na Europa, foi certamente o mais poderoso instrumento de difusão político-ideológica do século XX em grande parte do mundo; principalmente nos países mais pobres, onde grande parcela da população era e segue analfabeta ou apenas semi-alfabetizada.

Este estudo demonstra, de forma empírica e teórica, como a força do rádio tem sido utilizada por parte de seus profissionais – radialistas de sucesso – como um trampolim para a conquista do êxito nos pleitos eleitorais em Londrina, como de resto tem ocorrido em outras cidades e estados brasileiros.
Utiliza para isto, no campo da sociolagia, fundamentalmente as teorias e teses desenvolvidas por Pierre Bourdieu (4), Márcia Vidal Nunes, Carlos Eduardo Esch e Maurício Ferreira da Silva.

Nas últimas décadas, tornou-se senso comum no País que os radialistas seriam beneficiados por sua profissão e levariam grande vantagem sobre os demais candidatos em pleitos eleitorais, independente dos partidos políticos aos quais eles pertençam. Por que razão, então, nem todos os radialistas que se lançam candidatos conseguem êxito.

Em seu livro ``O Poder Simbólico´´ (1989), o autor francês desenvolve as teses de espetacularização das campanhas eleitorais, de construção de capital eleitoral por profissionais da mídia, e da participação destes como outsider na política institucional; três pilares nos quais se assentou a presente pesquisa nas eleições? E, ainda, por que nem todos os radialistas que comandam programas com grande audiências aceitam o convite de partidos para entrar na carreira política?

Foi com o objetivo de responder a estes e outros questionamentos que realizamos nossa pesquisa. 
Para isto, levamos em consideração o contexto histórico e a conjuntura política em que esteve o rádio no Brasil; desde a sua chegada ao Rio de Janeiro, em 1922 (durante as comemorações do Centenário da Independência), passando pela instalação da primeira emissora em Londrina, em setembro de1943 (época do começo da cidade e em plena 2a Guerra Mundial), até o ano 2000.

(3) O termo inglês é utilizado neste texto para designar o político em início de carreira e que não teve formação e militância partidária antes de sua primeira candidatura, sendo considerado, portanto, como um estrangeiro, um intruso que veio de fora para, de maneira oportunista, ocupar o espaço de políticos tradicionais

(4) Em seu livro ``O Poder Simbólico´´ (1989), o autor francês desenvolve as teses de espetacularização das campanhas eleitorais, de construção de capital eleitoral por profissionais da mídia, e da participação destes como outsider na política institucional; três pilares nos quais se assentou a presente pesquisa.

Trabalho apresentado por Osmani Ferreira da Costa, professor de Comunicação/Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O autor é professor assistente do Departamento de Comunicação, curso de Jornalismo, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná. Bacharel em Comunicação/Jornalismo e Mestre em Ciências Sociais, ele é docente da UEL há 20 anos, onde participa de projetos de pesquisa e ministra aulas nas subáreas de jornalismo impresso e radiojornalismo.
Com base em dissertação de mestrado, Costa publicou o livro ``Rádio e Política´´, pela Eduel, em 2005.

(Continua)

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