quinta-feira, 24 de março de 2011

O silêncio interiorano do Rádio Gaúcho na ditadura

"Hoje, não encontramos registros sonoros daquela época. Os documentos e registros, em papel, são poucos, mas o suficiente para compreender que os anos de ditadura foram singulares para as rádios e que deixaram marcas também nos ouvintes.

A censura não cortou apenas notícias ou impediu manifestações. Ela deixou como herança o amordaçamento de toda uma geração, que hoje talvez não consiga se expressar sem passar pelo crivo da autocensura."

O rádio no interior do Rio Grande do Sul viveu a ditadura de modo obediente, sob protesto, mas quase em silêncio.
Não havia outra alternativa senão cumprir as ordens do regime militar ou então lhe seria aplicada a punição mais temida: fechamento da emissora ou prisão de radialistas ou diretores.
É relevante destacar que o governo percebeu que seria mais eficiente manter o poder pela persuasão do que pela força. Para tanto, precisariam, no âmbito da comunicação, “calar quem era contrário e fortalecer os que estivessem de acordo com sua política” (CAPARELLI, 1983, p.96). Para os militares a manutenção do controle sobre a imprensa era fundamental a sua sustentação no poder.
A idéia de que a ditadura estava ocorrendo era unânime.
Entretanto, esta palavra era proibida, assim como qualquer manifestação pública que não estivesse devidamente aprovada pelo regime.
Pelos depoimentos dos radialistas podemos perceber que algumas emissoras de rádio assimilaram de modo positivo a presença e o controle dos militares sobre elas, manifestando inclusive relações de amizade com os mesmos, o que pode parecer controverso, pois “a mesma mão que te reprime é a mesma que tu afagas”.[3]
Fazendo a leitura deste aspecto, entendemos que os anos prolongados de ditadura e a reprodução diária de uma mesma rotina de controle acabaram amenizando, no interior do Rio Grande do Sul, a existência de censura.
A presença cotidiana dos militares e a obrigação dada às rádios de fiscalizar elas mesmas os seus noticiários locais, embora promovesse a autocensura, criava a ilusão de que a ditadura estaria ocorrendo em outro lugar. 
Mesmo em emissoras como a Progresso de Ijuí, onde houve o fechamento da rádio e prisão de seus diretores, percebemos um sentimento de busca de respeito e auto-afirmação diante da autoridade, bastando observar para tanto a linguagem da correspondência oficial dirigida a elas.
Hoje, não encontramos registros sonoros daquela época. Os documentos e registros, em papel, são poucos, mas o suficiente para compreender que os anos de ditadura foram singulares para as rádios e que deixaram marcas também nos ouvintes.
A censura não cortou apenas notícias ou impediu manifestações. Ela deixou como herança o amordaçamento de toda uma geração, que hoje talvez não consiga se expressar sem passar pelo crivo da autocensura.
Esse trabalho acadadêmico, de rico contúdo organizado pelas Vera Lucia Spacil RADDATZ [1] e Ângela Maria ZAMIN [2], teve as seguintes fontes de consulta:

AQUINO, Maria Aparecida de. Censura, Imprensa e Estado Autoritário (1968-1978): o exército cotidiano da dominação e resistência: O Estado de São Paulo e Movimento. Bauru: EDUSC, 1999.
ARQUIDIOCESE de São Paulo. Brasil: Nunca Mais – um relato para a história. São Paulo: Ed.Vozes, 1985.
BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica: história da imprensa brasileira. 4. ed. Revista e aumentada. São Paulo: Ática, 1990. v. 1.
BELAU, Ángel Faus.
Radio y Poder Político. In.: Comunicación Social 1996/Tendencias: Poder, democracia y medios de comunicación. 
Madrid: Fundación para el Desarrollo de la Función Social de las Comunicaciones, 1996. p. 273-279.
CAPARELLI, Sérgio. Imprensa Alternativa. In: QUEROZ E SILVA, Roberto P. de. Temas Básicos em Comunicação. São Paulo: Edições Paulinas, 1983. p. 13-16.
COBELLI, João René. Rádio. Uruguaiana/RS, abr. 2006. Registro para pesquisa referente à censura no rádio. 
Entrevista concedida a Vera Lucia Spacil Raddatz.
COIMBRA, Delfino.
Rádio. Ijuí/RS, mar. 2006. Registro para pesquisa referente à censura no rádio. 
Entrevista concedida a Vera Lucia Spacil Raddatz
FOLETTO, Honorato. 
Rádio. Três de Maio/RS, mar. 2006. 
Registro para pesquisa referente à censura no rádio. Entrevista concedida a Eduardo Mireski.
KUCINSKI, Bernardo. A primeira vítima: a autocensura durante o regime militar. In.: CARNEIRO, Maria Luiza Tucci (org.). Minorias Silenciadas: História da Censura no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo / Imprensa Oficial do Estado / Fapesp, 2002. p. 533-551.
KRYSZCZUN, Alberto. Rádio. Horizontina/RS, mar. 2006. Registro para pesquisa referente à censura no rádio. 
Entrevista concedida a Eduardo Mireski.
MARCONI, Paolo. A censura política na imprensa brasileira (1968-1978). 2. ed. São Paulo: Global Editora. 1980.
MEDINA, Cremilda.
As múltiplas faces da censura. In.:CARNEIRO, Maria Luiza Tucci (org.). Minorias Silenciadas: História da Censura no Brasil. 
São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo / Imprensa Oficial do Estado / Fapesp, 2002. p. 421-434.
NADAI, Elza e NEVES Joana. História do Brasil: da colônia à República. São Paulo: Saraiva, 1991.
POMMER, Arnildo. Rádio. Ijuí/RS, mar. 2006. Registro para pesquisa referente à censura no rádio. Entrevista concedida a Vera Lucia Spacil Raddatz.
REIS FILHO, Daniel Aarão. Vozes silenciadas em tempo de ditadura: Brasil, anos 1960. In.: CARNEIRO, Maria Luiza Tucci (org.). 
Minorias Silenciadas: História da Censura no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo / Imprensa Oficial do Estado / Fapesp, 2002. p. 435-450.
RIOS, Rafael Vilar. Rádio. Cachoeira/RS, abr. 2006. Registro para pesquisa referente à censura no rádio. Entrevista concedida a Vera Lucia Spacil Raddatz.
SILVA, José Schneider. Rádio. Cachoeira/RS, abr. 2006. Registro para pesquisa referente à censura no rádio. Entrevista concedida a Vera Lucia Spacil Raddatz.
SMITH, Anne-Marie. Um acordo forçado: o consentimento da imprensa brasileira à censura no Brasil. 
Tradução Waldívia M. Portinho. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000.



[1] Mestre, Professora e Pesquisadora da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUI, Ijuí/RS e Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – PPGCOM/UFRGS, Porto Alegre/RS – verar@unijui.tche.br – GT Mídia Sonora
[2] Jornalista, Bolsista CNPq, Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – PPGCC/UNISINOS, São Leopoldo/RS – angelazamin@gmail.com – GT Mídia Sonora

[3] Adaptado de provérbio popular

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