terça-feira, 29 de março de 2011

Rádio constrói marca eleitoral - A política e o Rádio de Londrina

Ainda que não seja possível mensurar – por uma série de fatores, entre eles o sigilo do voto – com exatidão o número de ouvintes que se tornaram eleitores dos radialistas candidatos, há fortes indícios a demonstrar que eles foram beneficiados pelo ``capital eleitoral´´ do rádio na carreira política. Os próprios radialistas-políticos admitem que a ``marca´´ que construíram a partir da relação diária e íntima com milhares de ouvintes – às vezes por muitos anos – os colocou em significativa vantagem na hora de competir com os ``desconhecidos´´ candidatos oriundos de outras profissões.

Dos 23 entrevistados por nossa pesquisa, apenas dois radialistas-políticos não creditaram ao ``capital eleitoral´´ conseguido com programas de rádio o seu ótimo resultado inicial nas urnas: Alvaro Dias, que considerou ter sido mais importante a militância no movimento estudantil na UEL; e Dácio Leonel de Quadros, que avaliou ter tido maior apoio eleitoral entre os clientes de sua outra profissão, como advogado.

Entre os 15 radialistas que obtiveram vitórias nas urnas, todos eram homens, brancos e trabalharam somente em emissoras de amplitude modulada (AM). Sete deles concluíram curso superior; e 11 tiveram passagens simultâneas ao rádio como apresentadores em emissoras de TV regional, o que possivelmente tenha colaborado para aumentar seu ``capital eleitoral´´. Outra característica une os radialistas-políticos vencedores: todos os campeões de votos eram, na época da eleição, apresentadores de programas líderes de audiência; notadamente de variedades, ou policial ou musicalsertanejo.

Inversamente proporcional, nenhum dos 17 radialistas derrotados apresentava programa com grande audiência. Mas não foi apenas o grande público ouvinte que garantiu as primeiras vitórias dos radialistas nas urnas, na cidade. Outros fatores externos à profissão nas emissoras devem ser considerados. Entre eles, destacam-se dois: o partido político a que eles se filiaram e o tipo de discurso por eles desenvolvido nos períodos pré-eleitorais.

Londrina tem-se caracterizado, ao longo das últimas décadas – talvez por ter pouco mais de 70 anos de emancipação, pela miscigenação de raças que aqui chegaram na época pioneira, pela rápida urbanização ampliada com a crise da cafeicultura e êxodo rural; e pela característica de centro universitário e prestador de serviços – como uma cidade cujo eleitorado vota preponderantemente em candidatos de partidos oposicionistas aos governos Estadual e Federal. Tanto é que, nas últimas oito eleições, sete prefeitos eleitos tinham esta característica. Ressalve-se que ``de oposição´´ não significa, necessariamente, de ideologia de esquerda; mas na maioria dos casos apenas e tão somente de ``partido diferente´´ daqueles que momentaneamente exerciam o poder nos executivos do Palácio Iguaçu e do Palácio do Planalto.

Entre os 15 radialistas eleitos vereadores na cidade nos últimos oito pleitos, 10 eram de partidos oposicionistas. Dos 17 radialistas derrotados na tentativa de conseguir uma vaga na Câmara Municipal, 11 pertenciam a partidos situacionistas – também não necessariamente de ideologia de direita. Estes dados demonstram que foram mais vitoriosos os radialistas que souberam conciliar suas grandes audiências com os partidos preferidos pelo eleitorado local e com o discurso ``oposicionista-mudancista´´ que os eleitores queriam ouvir.

Isto ficou ainda mais claro na última eleição municipal pesquisada, em 2000, a primeira desde 1959 a não ter sequer um radialista eleito como vereador ou prefeito.

Terá esta derrota coletiva significado o fim do ciclo de radialistas na política local? É bem provável que não; que esta derrota tenha sido apenas momentânea e conseqüência das circunstâncias especiais presentes naquele pleito.

A campanha de 2000 foi influenciada por um período pré-eleitoral conturbado, marcado pelas fortes emoções do processo de cassação do radialista-prefeito Antônio Belinati, que exercia seu terceiro mandato. Ele foi o primeiro prefeito cassado na história da cidade, sob denúncias de desvios de verbas e corrupção administrativa.

Junte-se a isto o fato de que os seis radialistas candidatos – cinco a vereador, dos quais três tentando reeleições, e um a prefeito – estavam direta ou indiretamente ligados a Belinati, além de pertencerem a partidos igualmente relacionados com a fracassada administração do prefeito cassado.

Não há indícios da ocorrência de algum importante fato que tenha, de uma vez por todas, colocado fim à possibilidade de participação vitoriosa de radialistas nas eleições em Londrina. Tudo indica, portanto, que a derrota coletiva de 2000 tenha sido passageira e circunstancial. Quase que certamente o rádio – por suas características e poder de penetração junto à camada mais numerosa, pobre e menos escolarizada da população – permanecerá desempenhando o papel de indutor de ``capital eleitoral´´ aos profissionais do microfone. É difícil que este potencial histórico do rádio seja extinto, de uma hora para outra, sem um motivo muito forte e claro.

Continuação do trabalho "Uma História Política do Rádio – a Aventura Eleitoral de Radialistas no Século XX em Londrina (PR) (1), por Osmani Ferreira da Costa, professor de Comunicação / Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) (2).


(1) Trabalho apresentado ao GT 5 – História da Mídia Sonora, do V Congresso Nacional de História da Mídia.

(2) O autor é professor assistente do Departamento de Comunicação, curso de Jornalismo, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná. Bacharel em Comunicação/Jornalismo e Mestre em Ciências Sociais, ele é docente da UEL há 20 anos, onde participa de projetos de pesquisa e ministra aulas nas subáreas de jornalismo impresso e radiojornalismo. Com base em dissertação de mestrado, Costa publicou o livro ``Rádio e Política´´, pela Eduel, em 2005.

(Continua)

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