quinta-feira, 31 de março de 2011

Realidade complexa e polêmica - A política no Rádio de Londrina

O número de radialistas eleitos encontrado em Londrina é bastante significativo.

E quase todos os radialistas-políticos entrevistados admitiram, em maior ou menor grau, que devem ao rádio e aos anos na profissão de radialista o capital eleitoral que se traduziu em votos nas urnas. Quatro dos radialistas-políticos foram os campeões de votos para o cargo de vereador, em diferentes eleições.

Entre os 15 radialistas vitoriosos, a quase totalidade é formada por apresentadores de programas de variedades diários, longos e de grande sucesso junto ao público ouvinte; e transmitidos em emissoras líderes de audiência.


No entanto, nem só de vitoriosos na política é composto o universo dos radialistas londrinenses.
Encontramos um número igualmente significativo de radialistas que se lançaram à aventura político-eleitoral e não obtiveram vitórias; além de uma parcela ainda maior de radialistas que – apesar de grande sucesso na profissão e dos insistentes convites de partidos – não entraram para a vida política e nunca foram candidatos a cargos eletivos, por motivação ética, profissional e/ou pessoal.

Com base nos dados coletados, consideramos que houve em Londrina no período estudado – a exemplo de outras cidades do país – uma relação marcante entre o sucesso na profissão de radialista e o posterior êxito eleitoral.

Mas esta relação não é linear, não sustenta aquele senso popular de que basta ser radialista para se eleger facilmente a qualquer cargo político.

Pelo contrário, encontramos 17 radialistas que se candidataram, alguns mais de uma vez, e nunca se elegeram vereador.

A realidade encontrada pela pesquisa é mais complexa do que parece aos olhos comuns. Coincidentemente, quatro radialistas que foram os mais votados para a Câmara Municipal não conseguiram a reeleição nos pleitos seguintes.

Eles, e outros que não se reelegeram deputados estaduais, admitiram que não conseguiram conciliar as carreiras de radialista e de político de maneira harmoniosa; e que, em determinados momentos frustraram as expectativas de seus “ouvintes-eleitores”.

Como analisou a pesquisadora Márcia Vidal Nunes (2000, p. 64):

O compromisso com o ouvinte no campo radiofônico
não garante uma atuação similar do radialista nocampo político. (...)
Muitos dos radialistas eleitos não conseguem fazer
praticamente nada do que haviam prometido,
o que gera frustração no ouvinte-eleitor. (...)
No campo político é diferente; suas regras, normas e processos
extremamente burocratizados impedem o
radialista-político de atender às pessoas individualmente. (...)
A magia é quebrada. O radialista já não pode tudo. (...)
Dividido entre o rádio e a política, ele se enfraquece.
Enfraquecido, o risco de fracassar é enorme.

Ficou demonstrado pelo estudo, portanto, que além de um poderoso instrumento de dominação e reprodução ideológica do Estado, o rádio pode ser utilizado como um importante meio para o êxito eleitoral inicial por parte de seus profissionais.

Ressalvese, no entanto, que o veículo – por si só – em nenhuma circunstância garantiu a reeleição dos radialistas-políticos, por maior sucesso que eles tivessem junto a milhares de ouvintes.

O rádio, como formador de opinião que goza de significativa credibilidade junto à população, ajuda a criar ao longo dos anos o capital eleitoral dos radialistas – que mais tarde atuarão como políticos outsiders. Isto possivelmente represente uma vantagem, também de difícil quantificação, sobre os demais candidatos que não dispõem deste “cabo eleitoral eletrônico” nos meses e anos que antecedem a maratona eleitoral.

Mas, além disto, o radialista necessita agregar à sua campanha – para alcançar a desejada vitória nas urnas – uma boa marca partidária, uma infra-estrutura material razoável, competência para se adaptar às exigências do mundo da política institucional, e recursos financeiros muitas vezes não disponíveis. Porque, como afirmaram alguns entrevistados, “o rádio ajuda bastante, mas não faz milagres”.

Em termos científicos, os principais passos da pesquisa foram seguidos e alcançados nas suas especificidades.
O estudo identificou e contextualizou historicamente os pontos centrais do objeto; descreveu e caracterizou quantitativa e qualitativamente o fato pesquisado no período delimitado; utilizou o embasamento teórico disponível na área; entrevistou o maior número possível de personagens; analisou, selecionou, interpretou e refletiu sobre os dados e documentos coletados.

É cada vez maior o interesse de pesquisadores pela história da mídia e pelos efeitos dos MCM sobre a política e as eleições no Brasil; com crescente número de estudos realizados na área por cientistas da Comunicação, da História e da Sociologia nas últimas décadas. Por estar revestido de complexidade, este tema gera grande polêmica.

Esperamos contribuir, com o presente texto, para um aprofundamento das discussões e melhor entendimento desta relação existente entre a mídia como um todo – e o rádio em particular – e a história política nacional; além de especificamente sobre a trajetória de radialistas enquanto personagens ativos nas eleições político-partidárias em Londrina.

Continuação do trabalho "Uma História Política do Rádio – a Aventura Eleitoral de Radialistas no Século XX em Londrina (PR) (1), por Osmani Ferreira da Costa, professor de Comunicação / Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) (2).


(1) Trabalho apresentado ao GT 5 – História da Mídia Sonora, do V Congresso Nacional de História da Mídia.

(2) O autor é professor assistente do Departamento de Comunicação, curso de Jornalismo, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná. Bacharel em Comunicação/Jornalismo e Mestre em Ciências Sociais, ele é docente da UEL há 20 anos, onde participa de projetos de pesquisa e ministra aulas nas subáreas de jornalismo impresso e radiojornalismo. Com base em dissertação de mestrado, Costa publicou o livro ``Rádio e Política´´, pela Eduel, em 2005.

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