quarta-feira, 16 de março de 2011

Rio Grande do Sul naquele período

Elegemos algumas emissoras como base para nosso estudo, por serem de abrangência regional e representarem diferentes pontos do interior gaúcho. São, portanto, objetos desta pesquisa a Rádio Cachoeira, de Cachoeira do Sul (centro do estado); Rádio Charrua, de Uruguaiana, Rádio Alegrete, de Alegrete (fronteira oeste), Rádio Progresso, de Ijuí (região noroeste), Rádio Vera Cruz, de Horizontina, Rádio Colonial, de Três de Maio (fronteira noroeste).

A reconstituição dos fatos aqui relatada é resultante de entrevistas realizadas com profissionais que atuaram nestas emissoras no período da ditadura militar. Segundo Aquino (1999), os depoimentos atuam como contraponto à pesquisa empírica. “Entende-se que no esforço de interpretação da experiência humana, o depoimento do contemporâneo assume o papel de um instrumento de análise privilegiado, na medida em que reveste, ao mesmo tempo, das problemáticas vivenciadas no presente e no passado” (AQUINO, 1999, p. 24).

Apresentamos ainda fragmentos coletados em documentos arquivados em duas das emissoras pesquisadas – a Rádio Charrua, de Uruguaiana, situada na região de fronteira, e a Rádio Progresso de Ijuí, na região noroeste, esta fechada por 21 dias durante o regime militar.

Esses documentos constituem-se como registros importantes para a fundamentação do conteúdo dessa pesquisa, pois fornecem elementos claros e precisos do modo como foi implantado o controle sobre a informação no rádio gaúcho.
A documentação utilizada – ao contrário dos bilhetes e ordens telefônicas que privilegiam a visão do Estado e, mais do que isso, de um Estado concebido como monolítico, livre de contradições e portador de uma só voz – procura resgatar a complexidade das relações sociais, expondo vozes silenciadas através do concomitante exercício da dominação e da resistência. O testemunho oral representou quase sempre um contraponto e um complemento do que se buscou na documentação (AQUINO, 1999, p. 24).

2. Os Anos da Ditadura

O quadro que se instalou no país antes do Golpe Militar era, segundo registram as historiadoras Elza Nadai e Joana Neves (1991), revolucionário. Reis Filho (2002) caracteriza este período como o mais turbulento da história republicana. Um plebiscito havia restabelecido um ano antes o presidencialismo, atribuindo plenos poderes a João Goulart e desencadeando uma discussão acirrada entre as facções contrárias e favoráveis a seu governo. No início da década de 60 o país era formado por dois blocos: um progressista e voltado para mudanças no âmbito sócio-político; outro conservador ou de direita, representado pelos partidos UDN e PSD. Já neste período estavam em evidência os grupos estudantis e os de trabalhadores rurais e urbanos. Nadai e Neves (1991) destacam que o conjunto formado por estes grupos, adeptos de mudanças na sociedade brasileira, era denominado de esquerda. A imprensa foi outro componente fundamental do período pré-64, inserida numa dimensão em que, de um lado, estavam as redes de televisão e os grandes jornais alinhados à direita e, do outro, empresas contrárias a defesa das classes dominantes.

O contexto político conturbado e complexo e o comício de 13 de março de 1964, no qual se anunciaram as reformas de base, marcaram o início do fim do governo de João Goulart, taxado neste período de comunista. O que era uma iminência tornou-se fato concretizado entre 31 de março e 1º de abril. O movimento do Golpe Militar iniciou com a sublevação em Minas Gerais; o avanço de tropas em direção ao Rio de Janeiro e Brasília; a saída de Jango da capital e seu asilo no Uruguai; a entrega do cargo de presidente a Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara; e o início da repressão em todo o país.

A ditadura militar que se instalou sob arquitetura do general Golbery do Couto e Silva foi gestada “na matriz da Guerra Fria e da Doutrina de Segurança Nacional” (KUCINSKI, 2002, p. 541), e caracterizada pela ruptura da normalidade institucional e bloqueio da participação popular no processo político, tendo por meta a segurança e o desenvolvimento do país. “Golpe ou revolução, o movimento de 64 se propõe ao ‘milagre’ de salvar a nação, restaurando-a no plano social, no plano econômico e no plano político.

Restringe a liberdade de informação e anula direitos essenciais do cidadão” (BAHIA, 1990, p. 320).

(Continua)

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