domingo, 4 de janeiro de 2015

PRIMEIRO ATLAS LINGUÍSTICO BRASILEIRO

Você sabe o nome daquela guloseima embrulhada em papel e que adoça a boca? De Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, é conhecido por bala. Nos estados do Centro-Oeste divide essa denominação com caramelo. Já no Norte e Nordeste aparece com mais três nomes: confeito, na costa que desce do Rio Grande do Norte a Maceió; queimado, na Bahia; e bombom, em especial no Amazonas, Acre e Pará.
Essas e outras diferenças que permeiam a forma como é usada a língua portuguesa são o tema do primeiro Atlas Linguístico Brasileiro. A obra foi lançada durante o último Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística, realizado no início de outubro, em Londrina, Norte do estado.
Na terra da mimosa
Uma localidade também pode reunir diferentes formas de denominar um mesmo conceito. Em Curitiba, por exemplo, alguns entrevistados mostraram que a fruta tangerina pode ser chamada de mexerica, mimosa ou ainda bergamota. Em São Paulo, além destes nomes, usa-se também falar maricota, nome com mais predominância na região do Centro-Oeste brasileiro, e carioquinha.. Outro exemplo é o inseto libélula. Em Curitiba, os pesquisadores encontram falantes dando até quatro nomes – bate bunda, lava bunda, libélula e helicóptero.
Uma coleção
Meta é levar estudo para escolas
Os dois primeiros volumes do Atlas Linguístico Brasileiro envolvem as pesquisas feitas em 25 capitais brasileiras, com oito falantes em cada cidade. Um terceiro volume do estudo já está a caminho e deve ser lançado até meados de 2015. A obra deve trazer interpretações sobre os dados colhidos e apresentados em mapas nos primeiros volumes.
O comitê do projeto também planeja lançar o quarto, quinto e sexto volumes com informações sobre falantes do interior do país. Ao todo, vão entrar nesses livros dados de entrevistados de 225 localidades.
A meta é levar as pesquisas para escolas, comenta a presidente do comitê, professora Suzana Cardoso. Para ela, ainda é preciso trabalhar mais as questões linguísticas em sala de aula e o material pode, futuramente, ser um instrumento de educação a favor da língua portuguesa e contra o bullying. “Vamos tentar uma publicação que possa reunir as informações de forma mais simples para as crianças. É importante que elas tenham claro que o jeito de falar pode ser diferente, que não deve ser alimento para a discriminação”, observa.
O estudo foi desenvolvido por pesquisadores de 27 universidades, entre elas a Universidade Estadual de Londrina (UEL), a única instituição paranaense envolvida.
Divididos por regiões, eles foram do Oiapoque ao Chuí em busca das variações dos falantes dos brasileiros. Percorreram 257 mil quilômetros, o equivalente a quase sete voltas na Terra, para entrevistar 1,1 mil pessoas em 250 cidades de todos os estados.
Pós-doutora em Linguística, a professora Vanderci de Andrade Aguillera, da UEL, encabeçou as pesquisas no Paraná e São Paulo. Ela relata que os trabalhos tiveram início em 1996, quando os pesquisadores montaram um comitê para desenvolver o projeto. Na época, alguns deles tinham publicado atlas linguísticos sobre suas regiões de atuação, mas isso não facilitou a conclusão da nova tarefa. Um desses atlas produzidos era da década de 1960. “Não podíamos aplicar o mesmo questionário para o atlas brasileiro porque algumas localidades nem existiam mais após tantos anos de estudo”, conta.
A pesquisa abrangeu então falantes de 18 a 30 anos e de 50 a 65 anos, de ambos os sexos, que nasceram nas cidades pesquisadas e são filhos de pais que também têm origem naquela localidade.
Além disso, os entrevistados não podiam ter passado mais de um terço de suas vidas fora da cidade natal. “Por isso, Palmas e Brasília foram capitais que ficaram de fora, porque não têm idade suficiente para ter duas gerações nascidas ali”, explica Vanderci.
Sem preconceito
O resultado da coleta de 3,5 mil horas de gravações foram respostas para cerca de 500 questões morfossintáticas, metalinguísticas e semântico-lexicais. Assim, o estudo conseguiu mapear não só as variações de vocabulário, mas de fonética entre os ouvidos. “O cigarro de fumo, por exemplo, em alguns lugares é chamado de mata-rato, em outros de porronca. O sinaleiro, de farol, semáforo, conforme a região. Mostrar isso é importante para acabar com o preconceito linguístico. Ninguém fala errado. Todas as variações têm uma explicação histórica”, sustenta a pesquisadora.
Esta diversidade linguística, analisa a presidente do comitê do projeto, professora Suzana Cardoso, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), também evidencia o quanto a língua é dinâmica e tem seu uso condicionado a características de povoação das regiões estudadas. Algumas das variações também não ocorrem apenas por diferenças geográficas, mas em virtude do sexo, escolaridade e idade dos próprios falantes. “A forma ‘degraus’, para o plural de degrau, por exemplo, é mais falada entre os entrevistados com curso superior. ‘Degrais’, no caso de falantes com ensino fundamental. Mas também observamos que já temos mais pessoas com nível universitário usando ’degrais”, diz.
Também são autores da obra os pesquisadores Jacyra Andrade Mota (UFBA), Maria Socorro Silva de Aragão (UFPB), Mário Roberto Lobuglio Zágaria (UFJF), Maria do Socorro Silva de Aragão (UFPB), Aparec
ida Negri Isquerdo (UFMS), Abdelhak Razky (UFPA) e Felício Wessling Margotti (UFSC). Fonte: Gazeta do Povo (04/01/15) onde o leitor encontra mais detalhes.

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